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Sobre o Enterro – Esquete

Um telefonema. Um recado urgente sobre um enterro. Uma diarista que não consegue entender e muito menos memorizar o recado. Muita confusão, discussão e um final trágico.

─Olha, avisa para a Juraci que a Dona Cleide ligou avisando que a tia dela faleceu e o enterro vai ser no cemitério “Agora é Tarde” às oito horas.
─Tá, certo eu aviso.
─Eu vou repetir: avisa para a Juraci que a Dona Cleide ligou avisando que a tia dela faleceu e o enterro vai ser no cemitério “Agora é Tarde” às oito horas.
─Deixa eu só anotar pra num esquecer. A Dona Cleide avisou que o enterro dela vai ser às cinco.
─Da tia dela.
─Da tia da Juraci?
─Não da Dona Cleide.
─Ah, bom. Dona Cleide avisou que o enterro da tia dela vai ser agora de tarde.
─Não o enterro é às oito da manhã.
─Ah, certo. O enterro da tia vai ser às oito da manhã.
─Isso.
─O da Dona Cleide é agora de tarde.
─Que é isso? A Dona Cleide não morreu.
─Quem é que vai ser enterrado agora de tarde então?
─Ninguém.
─O senhor falou agora de tarde e às oito horas.
─Eu falei que o nome do cemitério é Agora é tarde.
─E o enterro.
─Às oito horas.
─Da tarde?
─Da manhã.
─Onde?
─No Agora é Tarde.
─Já enterrou?
─Não. O nome do cemitério é Agora é Tarde.
─Ah, bom.
─Então você avisa a Juraci sobre o enterro?
─Da Dona Cleide, né?
─Não, da tia Dela.
─Da tia da Juraci.
─Não, quem faleceu foi a tia da Dona Cleide.
─Ah! A tia da Dona Cleide fa… leceu… (repete com dificuldade).
─Isso.
─Mas o senhor não falou que vai ter enterro?
─Não sei quantas vezes.
─Quem morreu?
─A tia da Dona Cleide.
─Mas não foi essa a que fa… le.. ceu?
─Isso, mesmo.
─E quem morreu?
─Olha aqui minha filha, isso é um momento de dor, e não de piada. Um pouco de respeito.
─O senhor é que tá me confundindo. Quem morreu e quem fa..le..ceu?

Silêncio.

─Olha eu acho que estou forçando demais sua cabecinha. Deixa eu facilitar um pouco. A tia da Dona Cleide MORREU e vai ser enterrada às cinco no Agora é Tarde.
─E quem fa… le…?
─Esquece essa palavra. Ela só morreu.
─Tá certo.
─Você avisa?
─Aviso.
─Posso confiar?
─Pode.
─Entendeu?
─Entendi.
─Mesmo?
─Mesmo.
─Então repete o recado.
─Avisar para a Juraci que agora é tarde, a tia dela morreu às oito da manhã e a Dona Cleide vai enterrar.
─Não é isso.
─Não grita.
─Grito porque você é burra.
─Não ofende.
─Você é sonsa.
─Eu vou contar para a Juraci.
─Você é analfabeta.
─Calma.
─É uma tapada.
─Calma cuidado com o coração.
─Como é que pode ser tão burra.
─Cuidado que o senhor vai acabar morrendo igual a sua tia.
─Minha tia não morreu, sua débil mental.
─Sua tia não é a Dona Cleide?
─Não.
─Você é sobrinho da Juraci?
─Meu deus do céu. Tem mais alguém aí?
─A Juraci.
─Chama ela pra mim por favor.
─Quem quer falar com ela?
─Chama ela logo.
─Ela me falou para só chamar quando souber quem quer falar com ela.
─Caralho, mulher. Fala que é o vizinho da Dona Cleide.
─A que morreu, seu Caralho?
─Seu caralho é a puta que pariu. Chama sua patroa agora, merda.
─Oia a educação, não vai grita com a Dona Juraci que ela é velhinha e sofre do coração.
─Então chama ela logo.
─O senhor já tá mais calmo.
─Estou, estou…
─Então eu vou chamar ela, tá seu Caralho.
─Seu caralho é a puta que pariu.
─Que isso, a sua tia Cleide morreu de quê pra você estar nessa raiva toda.
─Por favor, sua energúmena, chama a Juraci.
─O senhor tem certeza que quer dar essa notícia pra ela nesse nervosismo todo?
─Tenho. Já me acalmei.
─O senhor não prefere que eu dê a notícia com mais calma?
─Não, pode deixar.
─Então eu vou chamar.
─Faça o favor.
─Então eu vou lá. Tá seu Caralho?
─Seu caralho é a puta que pariu. Sua besta.
─Vichi…Só vou preparar ela primeiro para não levar muito susto.
─Faça como quiser. Só chame ela por favor.
─Com licença seu …

Silêncio.

─Caralho seu Caralho, puta que pariu.
─O que que foi agora, meu saco.
─Eu fui avisar pra Dona Juraci que a tia dela morreu, a Dona Cleide ia ser enterrada e que o caralho queria falar com ela agora de tarde e ela teve um ataque. Será que no horário das oito e meia depois do enterro da Dona Cleide não tem um horário sobrando?

Nelsinho Agiota

Enquanto isso, num pequeno escritório em uma minúscula e velha sala comercial, em um velho prédio no decadente centro da cidade…

 

―Caixa d’Agua Contabilidade, boa tarde. O Siqueira, está sim, só um instante. Siqueira, telefone pra… ―  Siqueira gesticula desesperadamente.

―Ah! É para falar que não está ― diz tampando telefone ― Olha, o Siqueira não está. Não, eu não disse que ele está. Eu… Eu disse… Eu disse que ele estava, agora não está mais. Onde ele foi, ele foi ao banheiro ― gargalhadas.

Siqueira começa a bater nele com um livro de contas.

― Era brincadeira, Siqueira. Era brincadeira ― volta a falar no telefone ― ele foi… foi… ― Siqueira faz mímica de médico ― Ele foi ao médico.

Siqueira gesticula, perguntando quem é.

― Quem gostaria de falar com ele?

Imediatamente se levanta, em pânico.

― Ahhhh! É o Nelsinho Agiota ― aponta para o telefone em desespero ― É o Nelsinho ― balbuciando para Siqueira ― Tudo bem Nelsinho, como vai meu querido. Que horas que o Siqueira volta?

Siqueira faz sinal de que não volta.

― Ele não volta mais hoje. Seu Nelsinho. Por quê? Por quê? ― pergunta para Siqueira que faz mímica de avião ― Porque ele foi viajar. É ele pegou a mala, foi para o médico e de lá ia viajar. Não, não estou curtindo com sua cara não, seu Nelsinho. Que isso? Um cara que ajuda tanto a gente… Que ajuda tanto a gente… Como é que é? Avisar para o Siqueira que… Sequestrou a mulher do Siqueira. Sequestrou o filho do Siqueira. No carro do Siqueira. E só devolve depois que o Siqueira pagar o que deve… O que que eu digo ― tapando o telefone.

Siqueira faz sinal de cortar o pescoço.

― Olha, eu não tô botando fé nesse casamento mais não, viu. O Siqueira vive reclamando que a dona Neide está cheia de nhenhenhem… de quê-quê-quê… Peraí…

Siqueira sugere uma pergunta, fazendo mímica de cachorro.

― O Siqueira está perguntando.

Siqueira lhe mete soco na altura do ombro.

― Ai! O Siqueira não tá perguntando por que não tá aqui. Né? Como é que ele ia perguntar se não tá aqui. Né? Mas… Mas… ele deixou um bilhete, para caso isso acontecesse ― diz sem acreditar no absurdo que está falando ― e no bilhete está dizendo para perguntar… se o senhor… se o senhor ― tenta entender mímica ― se o senhor também sequestrou o cachorro do Siqueira. Sim!?! Não é porque o Siqueira tá dizendo…

Leva outro soco no braço.

― Quer dizer, o bilhete do Siqueira está dizendo que…

Siqueira escreve num papel e mostra a ele.

― Que… que a ração do cachorro é… é… é Farofino. É, Farofino. O quê? Vai botar a dona Neide para falar comigo. Não… Não põe que eu fico sem jeito… Dona Neide ― saúda com falso entusiasmo extremo ― Como é que vai a senhora? Situação chata essa né dona Neide. O Siqueira? O Siqueira não está dona Neide. É sério, ele não está. Oh! Oh! Oh! Dona Neide, não ofende porque eu não tenho nada a ver com isso. Quer saber. Passa pro Nelsinho aí que meu negócio é com ele. Tá um abraço. No da senhora também. Nelsinho, meu querido. Nelsinho, meu querido. Nelsinho meu querido. O negócio é o seguinte ― Siqueira faz diversas mímicas incompreensíveis ― Sabe aquele bilhete que o Siqueira deixou? Pois é, o bilhete ― diz sem graça, incrédulo, tentando ganhar tempo ― Nesse bilhete tem uma pergunta do Siqueira. Ele pergunta se… caso uma situação dessa ocorresse… se nesse caso, se o senhor ficasse com a dona Neide e as crianças… a dívida não estaria perdoada?

Nesse instante Siqueira para com as mímicas e, freneticamente faz sinal de positivo.

― Como é que é? Só se a gente passar o dinheiro do seguro do carro para o senhor?

Siqueira continua, freneticamente fazendo sinal de positivo.

―Mas é claro. Só dá um sumiço no carro que a gente passa o dinheiro. Claro que a gente tem sua conta. Todo mês tem que depositar uma porrada ― diz para si.

Siqueira volta a fazer mímica de cachorro.

―Ó. O Siqueira está pedindo para lembrar…

Novo soco no braço.

―O bilhete do Siqueira está pedindo para lembrar ― enfático ― que a ração do cachorro é… Farofino. Farofino, é… Então tá, seu Nelsinho. Um abraço para o senhor. Divirta-se com a dona Neide. Manda um abraço para as crianças. Tá? Tudo de bom.

Desliga o telefone. Trêmulo. Olha para o Siqueira, que está atônito, e diz rindo já sem forças.

― Uma dívida a menos.

Desmaia na cadeira.

Na fila (possível continuação de polifobia)

P— Boa tarde.

C1— Boa tarde.

P— Aqui que é a fila?

C1—É. Aqui é fila… Mas não sei se é a fila – diz dando ênfase ao final da frase.

P— Como assim? É a fila ou não é?

C1—Sim. É uma fila.

Silêncio.

P—Onde vai dar esta fila?

C1—Logo ali – apontando.

P—Ali, né.

C1—É pra lá mesmo?

P—Sim.

C1—Precisa de senha.

P—Não sei pra quê.

C1—Pra que o quê?

P—A senha ou a fila.

C1—Como?

P—Se tem fila não precisa de senha. Se tem senha não precisa ficar na fila. Mas aqui tem que pegar a senha para entrar na fila. Se ainda fosse fila para pegar a senha, vá lá. Mas senha para pegar a fila é demais.

C1—Nunca pensei nisso.

Silêncio.

C1—Qual é a sua senha?

P—Deve ser a próxima depois da sua.

C1—Talvez não.

P—Como não?

C1—Tinha gente, onde você estava. Mas já foi embora. Qual é sua senha?

P—Prefiro não olhar.

C1—Por quê?

P—Me deixa nervoso.

C1—Por quê?

P—Não sei, não gosto de olhar.

C1—Quer que eu olhe.

P—Faça o favor. Mas não precisa me dizer.

C1—Tá bom!

Silêncio

P—É a próxima?

C1—Depois da minha?

P—É.

C1—Não, é a número…

P—Não precisa dizer – diz com inesperado nervosismo.

C1—O que, o número?

P—É.

C1—Mas por quê?

P—Fico nervoso.

C1—Com o número?

P—É.

C1—Mas por quê?

P—Sei lá.

C1—Parece que o senhor está suando.

P—Nervoso.

C1—Pelo número?

P—Pelo número.

C1—Desculpe.

P—Não foi nada.

Tira um lenço da bolsa e tenta enxugar o suor na testa.

P—Que que isso? – dando um fóbico passo para trás.

C1—Só limpando o suor – assustada com a reação.

P—Pode deixar – ofegante.

C1—Mas o senhor não está bem – insistindo e ele se esquivando.

A luta continua até que ele explode.

P—Não me toca. Não me toca.

C1—O senhor não está bem. O que o senhor tem?

P—Nem te falo. Um monte de coisa.

C1—O senhor não se lembra o que tem? Se tem que tomar algum remédio…

P—Não. Eu… Eu… Remédio? Será isso?

C1—Então é o remédio?

P—Que remédio?

C1—Não sei. O senhor que falou.

P—Não estou lembrando de nenhum remédio. Será isso?

Pega seu pequeno caderno e começa a folhear.

P—Remédio. Remédio. Não estou vendo nada sobre remédio – lê diversos trechos, mas nenhuma referência a remédio – Acho que não tem remédio. Só se eu esqueci de anotar.

C1—O senhor costuma ter essas ausências?

P—Como assim, ausência?

C1—Isso, de ficar esquecendo as coisas.

P—Você também acha que tenho amnésia?

C1—Amin… o que?

P—Que estou perdendo a memória?

C1—Parece.

P—Ai, eu sabia que isso estava acontecendo. Já estão notando.

C1—O senhor quer minha senha pra ser atendido mais rápido? Ou melhor, vou pedir para aquele senhor no início da fila. É caso de emergência.

P—Não precisa. Não adianta – recompondo-se.

C1—Mas daqui a pouco não vai dar tempo de o senhor ser atendido hoje. Olhe a hora – diz mostrando o relógio.

P—Ai, não. Por favor, fique longe de mim.

C1—Meu senhor, já são cinco e meia e o tempo está passando e…

P—Não quero saber. Fique longe de mim – encurralado pelo próprio desespero.

C1—Mas sua senha é a 154!

P—Eu não quero saber do número, já falei.

C1—E a minha é a próxima. É a 75.

P—Eu não quero saber – desesperado.

C1—Olhe o número lá no painel.

Em um rápido movimento ela agarra um pequeno banco e se aproxima dele

C1—Pelo menos se sente um pouco.

P—Não – tropeça nas pernas e se arrasta para trás – eu não posso – apontando para o banco.

C1—Prefere ficar sentado no chão?

Ao se dar conta da posição, se estira no chão.

C1—Olha lá! Já é minha vez. Não quer entrar no meu lugar? Decida logo o tempo está passando.

P—Não. Não – estrebuchando – pode ir. Pode ir.

C1—Tá. Bom. Espero que o senhor melhore.

Ela entra.

P—Ai, meu coração. Ai, meu coração. Estou tonto. Será que eu uso sublingual?

Começa a procurar, em desespero, a palavra sublingual no caderno. Quando ela volta.

C1—Olha. Como já são quase seis, o doutor disse que a próxima senha será a 154. Anota no caderno. Não esquece.

E ele sofre seu primeiro infarto fóbico.

Polifobia

Personagens:     N[ Narrador/psicopatologista]  

                               P[ Personagem/sujeito]

 

N—Eis aqui uma oportunidade única para psicopatologistas identificarem e estudarem, em uma só mente, inúmeros transtornos de ansiedade, causados pelas mais banais situações cotidianas.

 Observa por alguns instantes o sujeito, que aos poucos vai ficando inquieto.

 P—Tudo bem, senhor?

 O narrador continua observando, sem se manifestar. O sujeito vai se manifestando desconfortável.

 P—Pois não.

 O narrador não muda sua atitude.

 P—O senhor quer parar de me olhar – explode.

N—Escopofobia. Medo de estar sendo olhado ………. Muitos de vocês podem estar se dizendo que este é um mal comum. Todos nós nos sentiríamos incomodados em diferentes graus ao sermos observados, em silêncio, continuamente – diz provocando novamente o sujeito – Mas posso provar que se trata de um caso raro de psicopatologia.

 Aproxima-se do sujeito e estende a mão.

 N—Tudo bem?

P—Tudo – responde evitando o contato.

N—Como vai? – tenta bater no ombro.

P—Bem, já disse – esquivando o ombro.

N—Que camisa bonita – tenta tocá-la.

P—É né! – se esforçando para não ser tocado.

N—Cortou o cabelo?

P—Não, tá igual a ontem! – se esquivando.

N—A barriga está em forma.

P—Dieta – esquivando.

N—E esse sapato? – tenta tocá-lo com o pé.

P—Tava de promoção – saltando.

N—Deixa eu te dar um abraço.

P—Não, obrigado – escapa por entre os braços e busca canto oposto.

N—É ou não é um caso clássico de afefobia. Medo de ser tocado. Sei que ainda podem estar incrédulos da dimensão deste caso. Irei mostrar mais três sintomas claros de fobia. Caro amigo – se aproximando do sujeito que ameaça esquiva – tudo bem, falarei daqui. Pode nos fazer um pequeno favor

P—Sim.

N—Tem certeza?

P—É algo simples mesmo? – fazendo menção à distância entre eles.

N—Certamente.

P—Tudo bem.

N—Conte até dez.

P—O que?

N—Conte até dez.

 Intimidado, ele começa.

 P—Um, dois… três… quatro…

 Diante de sua aparente dificuldade o narrador o apressa.

 N—Vamos. Algum problema. Até dez.

P— Cinco – as pausas vão se tornando maiores e ele vai ficando ofegante.

N—O tempo está passando. Já vai ser um minuto e nada de contar.

P—Seis – mais nervoso.

N—Vamos logo. Lá se vão dois minutos.

P—Sete – mais nervoso.

N—Três minutos. Olhe no meu relógio – aproxima-se mostrando o relógio.

P—Oito, nove, dez – termina em explosão, protegendo-se do narrador.

 O narrador o observa aquele triste quadro.

 N—Alguém saberia dizer quais fobias temos aqui? Alguém… Aritmofobia. O sujeito demonstrou claro medo de números. Sem me delongar demais com esta demonstração, provoquei outras duas situações correlatas para sua ansiedade. O Tempo e o relógio. Cronofobia e cronomentrofobia – sorri orgulhoso de si – Ao mesmo tempo demonstra falsa pena.

 Busca uma cadeira. Coloca-a próxima ao sujeito.

 N—Desculpe por tudo. Sente-se por favor.

Numa reação automática o sujeito senta. Seu processo de recuperação se inverte. Volta a ficar ofegante. Até que se dá conta de si e levanta rapidamente.

N—Catisfobia. Medo de se sentar. Coisa que vocês não tem. Com certeza – volta-se ao sujeito – aposto que, com sua curta memória, não se lembra de nada do que aconteceu até aqui.

Sujeito começa a divagar, recuperando trechos da conversa e sugerindo recordações.

P—Patologia. Psicopatologia. Ele veio falar de psicopatologia. Psicopatologia nas… nas situações cotidianas – começa a anotar – As patologias acontecem no cotidiano. Transtornos. Eu sou um exemplo. Transtorno de ansiedade nas situações cotidianas. É isso – nervosismo crescente – Ele ficou me olhando. Deu nome de fobia. Tentou me tocar. Outro nome de fobia. Como é que se chama mesmo? – angustiado – Como é o nome da fobia mesmo?

O narrador permanece estático. Orgulhoso de seu poder.

P—Éééé. Tem. Mais. O que veio depois. O relógio. Falou do relógio. Outra fobia. Não consigo me lembrar – bate na cabeça – Os números. Depois vieram os números na cadeira. Eu não sento – gritou como se respondesse algo – E, agora… agora… agora… eu não me lembro mais – contendo o desespero.

N—Amnesifobia. O sujeito tem medo de perder a memória. E de fato perde, tamanha a ansiedade. Confesso que nunca vi o caso em um sujeito de tão pouca idade. Senhores – conclusivo – poderia me delongar aqui com outras demonstrações deste rico exemplar de transtornos de ansiedade. Poderia demonstrar sua fonofobia, medo de vozes, sua mitofobia, medo de mitos, sua necrofobia, medo da morte ou de mortos. E poderia inclusive provocar aqui algo raro, um paradoxo: poderia provocar tanto a afobia, o medo de não sentir medo, e a fobofobia, medo das próprias fobias. Mas não, ao invés disso, imaginemos o cotidiano deste sujeito. Imaginemos como convive, como trabalha, como caminha, como come, como dorme. Imaginemos….

Continua… Aceita-se sugestões….

A tradutora do Google – Parte 1

A tradutora do Google

Parte 1

 

Nos tempos modernos, com o advento da internet, as relações sociais e afetivas sofreram sérias transformações. Quem antes era Nerd agora é Geek. Quem antes tinha agenda cheia de amigos, agora tem Facebook e Orkut lotados. Quem antes era popular e vivia nas rodas, agora dá twitts e tem vários seguidores. Quem antes era solitário, agora tem solução.

Altair era um desses solitários. Desde a infância ficava isolado. O pai mandava ele jogar bola, para ver se enturmava.

Olha lá. Fica só na banheira e não participa do jogo.

A mãe, mais complacente, defendia.

Deixa, é coisa da idade. Daqui uns dias na escola estará cheio de amigos.

E na escola Altair era destaque. Ou melhor, destacado da turma. Sentava no canto esquerdo da sala. Quase entrando na quina da parede. Só não o fazia porque lá já tinha cupim, e ele não se misturava.

Não participa nem de bagunça. O professor nem se lembra dele.

O pai cutucava.

Deixa. Na adolescência vai estar cheio de colegas andando de skate e indo ao shopping.

Na adolescência Altair só saia do quarto para a faxineira dar um trato. Trato no quarto, diga-se de passagem.

E assim Altair passou a vida. Passou em contabilidade no vestibular. Ninguém lembrou dele no dia do trote. Escolheu o conhecido canto esquerdo da sala durante todo o curso. Os colegas se assustaram quando o viram na formatura.

Quem é esse aí?

Deixa. Um dia ele conhece uma moça boa e vai estar rodeado de parentes e crianças.

A mãe ainda insistia. O pai só o via nas festas de fim de ano. Seu lugar já estava sempre reservado no canto da sala.

Altair abriu um escritório. Contratou uma secretária bastante competente para manter contato com o mundo lá fora. E ele só ficava no canto do escritório. Fazendo seu trabalho. Muito bem feito por sinal.

Mas um dia ele cansou. Cansou, não. É algo dinâmico demais para Altair. Ele se sentiu levemente entediado. Depois de três décadas de silêncio, era o mínimo que podia sentir.

Resolveu ir a um encontro de contadores. Lugar melhor para solitários, não consigo imaginar. Conversa vai, conversa vem. Altair no canto, é claro. De repente um antigo vizinho o reconheceu.

Cumprimentos corriqueiros. Perguntas sobre a família. O ponche já estava subindo e pela primeira vez Altair falou mais que o necessário.

Solidão.

Foi a resposta mais significativa que dera a uma pergunta em anos.

O colega, especialista no assunto, foi imediatamente prestativo.

Os tempos são outros Altair. Você já usou o tradutor do Google?

Altair fez que não.

Acesse este site aqui – anotou o endereço – lá tem vários diálogos. Pode escolher o que convier. No começo é estranho, confesso. Mas com o tempo a gente até sente falta daquela voz formal e pausada.

E Altair ficou com aquilo na cabeça. Cabeça que doeu um pouco no outro dia.

Quando chegou em casa, não duvidou. Colocou seu netbook na cozinha acessou o site. Escolheu um diálogo intitulado “Rotina 3”. Entrou no Gmail. Entrou no tradutor do Google. Colou o texto e clicou no botão “Ouvir”.

Boa noite, meu bem.

A voz pausada e formal explorou lugares nunca antes alcançados por uma onda sonora no apartamento de Altair. Ele demorou um pouco para tomar coragem.

Boa noite – disse de costas para o computador, enquanto preparava algo rápido, tentando passar uma imagem de pessoa centrada, autossuficiente.

A casa estava triste sem você – a voz continuou.

Ele quase deixou o saleiro de inox cair. Tamanho foi o tremor. Não respondeu.

Hoje não saí. Estava com dor de cabeça mas já passou.

Que bom – respondeu ele desajeitado, sem acreditar no que dizia. Se sentia acuado na cozinha invadida por um espectro feminino.

Fiquei pensando em você o dia inteiro.

Altair quase desmoronou. É nisso que dá três décadas de energia acumulada.

Eu também.

Disse engasgado. Olhando para o netbook com olhar levemente comovido.

Você pensou em mim, querido?

Eu acabei de dizer isso… querida.

Ah! Eu fico tão feliz quando chega em casa – a voz mecânica do tradutor quase soou melancólica e doce.

O dia no trabalho foi corrido – disse espontaneamente entrando no clima, enquanto terminava de preparar a janta, para um, é claro – E, para piorar, minha mãe resolveu ligar para dar notícias.

E com foi o dia no trabalho?

Mas eu acabei de falar que foi corrido.

Era incrível. Nestes anos todos Altair inconscientemente parecia ter ensaiado o cotidiano de um casal, pois expressou-se com certo tom de agressividade diante da segunda pergunta repetitiva.

Eu tenho tanto orgulho de você ser tão bem sucedido. Ainda mais neste mercado tão competitivo – ela continuou.

Até que não é muito competitivo não. Ainda mais depois que implantaram prova registro profissional. Agora está faltando profissional no mercado. Tem empresa desesperada ligando para gente dizendo…

Quando começava se empolgar com o diálogo, coisa inconcebível para qualquer um que conheça Altair, a voz continuou friamente.

Têm notícia da sua mãe?

Mas eu falei agora pouco que ela ligou, não falei? – incrível, Altair era fluente numa discussão. Algo inimaginável – E o que é que tem minha mãe. Vamos falar de nós – aumentou o tom.

Que tal a gente pedir uma pizza e comer vendo um filme?

Peraí, você estava vendo o tempo todo que eu estava preparando a minha janta… Quer dizer nossa janta – concertou sem jeito para não parecer egocêntrico, mas sem perder o jogo de cintura – e agora vem me dizer que é para pedir uma pizza? O que está havendo aqui. Você quer me irritar é?

Agora a coisa saía do limite. Altair declarara aberta a primeira discussão com… com … com sua… Como é que vamos classificar aqui. Com sua companheira, digamos.

Para mim pode ser de brócolis.

Quer saber, peça uma para você. Conecte aí numa pizzaria online e se vire.

Saiu deixando a voz falando sozinha.

Ah! E peça uma Coca-Cola também.

Não enche – gritou de longe achando que aquilo era provocação.

Hoje vai passar Lagoa Azul. Quero assistir com você.

Lagoa Azul? Mas que merda é essa? Quem disse que eu quero assistir Lagoa Azul?

Você precisa ligar para sua mãe.

Eu já disse que falei com ela hoje – gritou do banheiro.

Amanhã você vai trabalhar?

Claro que vou. Por que está perguntando isso?

Amanha de tarde vai passar E o Vento Levou.

Se eu não quero assistir Lagoa Azul, vou querer assistir E o Vento Levou na sessão da tarde?

Você já pediu a pizza?

Que pizza?

Bem. Daí para frente o diálogo se tornou extremamente improdutivo. Embora já estivesse pouco construtivo. Os vizinhos estranharam a discussão. Nunca nem haviam notado a presença de Altair, que nem sequer pegava elevador para ir de escada sozinho.

O porteiro estranhou Altair sair de casa tarde da noite. Contrariado. E só voltar no outro dia depois do expediente. Olhos fundos, inchados. Desarrumado. Com uma pizza, cheirando brócolis ao longe, um buque de flores vermelhas e um DVD remasterizado de Lagoa Azul.

Bem, ele pensou o dia inteiro e achou que devera fazer as pazes.

Jantar em Família

Gênero: Comédia

Autor: Fabrício Bueno

Peça em três atos.

Resumo: Certa noite, estava marcado um tradicional jantar de família, quando a primeira namorada do filho iria ser apresentada. Dá-se aí uma grande confusão. O marido e a amante são surpreendidos, e tentam esconder a relação. O filho resolve sair do armário. A namorada não é bem uma “namorada”. A filha não tem limites. Um simples entregador se vê seriamente envolvido na confusão. Enfim, ninguém será o mesmo depois desta fatídica noite.

jantar em familia – ato 1

jantar em família – ato 2

jantar em família – ato 3

Sem Rumo

[Atendente]―Bom dia.

[Pai] ―Bom dia.

[Atendente]―O que o senhor deseja?

[Pai] ―Eu vim registrar minha filha.

[Atendente]―Ah! Que bom. Meus parabéns. Deixa eu ver. Ficha para registro. É essa aqui. Vamos lá. Nome?

[Pai] ―Meu ou dela?

[Atendente]―O seu.

[Pai] ―Antônio de Sá da Silva Silveira.

[Atendente]―Legal. Tem ritmo.

[Pai] ―O que?

[Atendente]―O nome.

[Pai] ―Ritmo? Que ritmo?

[Atendente]―Ritmo.

[Pai] ―Mas que tipo de ritmo? É só um nome.

[Atendente]―Mas o som é rítmico.

[Pai] ―Qual estilo?

[Atendente]―Não sei bem.

[Pai] ―Valsa?

[Atendente]―Não.

[Pai] ―Ainda, bem. Detesto valsa.

[Atendente]―Gosta de xote?

[Pai] ―Meu nome tem ritmo de xote?

[Atendente]―Não. Não. Só perguntei para saber se gostava.

[Pai] ―Não, gosto. Nem de frevo.

[Atendente]―O que tem frevo haver com xote?

[Pai] ―Não sei. São do mesmo lugar.

[Atendente]―Não senhor. Frevo é pernambucano, derivado da marcha, maxixe e capoeira.

[Pai] ―E xote?

[Atendente]―Dança de salão de origem portuguesa.

[Pai] ―Eu pensei que era coisa do nordeste.

[Atendente]―Não senhor. A a palavra é de origem alemã. Corruptela de Shotisch.

[Pai] ―Corruptela?

[Atendente]―É. Emprego de formas linguísticas não convencionadas.

[Pai] ―Credo parece coisa de Aurélio.

[Atendente]―Luft.

[Pai] ―Você também tem um Luft. Achei que era só eu.

[Atendente]―De jeito nenhum. Eu adoro o Luft. Olha aqui – tira o dicionário de baixo do balcão – Adoro a combinação de amarelo com laranja da capa.

[Pai] ―Ah! O seu está conservado. O meu já está bem gasto. Bom. Mas vamos voltar ao registro de minha filha.

[Atendente]―Certo. Onde eu estava. Ah! Sim. Seu nome. Rítmico. Já falei?

[Pai] ―Já.

[Atendente]―Certo. Me empresta a identidade?

[Pai] ―Sim. Pode ser carteira de motorista?

[Atendente]―Pode sim. Foto bem tirada, hein?

[Pai] ―Dia de sorte.

[Atendente]―Pode ser. Mas a máquina ajuda muito.

[Pai] ―A máquina e o fotógrafo.

[Atendente]―Mas tem máquina que dispensa fotógrafo.

[Pai] ―Só não vi fotógrafo que dispensa máquina. Tudo bem. Mas e o registro da minha filha.

[Atendente]―Ah! Sim. Eu preciso do… do… Como chama mesmo?

[Pai] ―O que?

[Atendente]―Aquele, documento que dão no hospital.

[Pai] ―Ah! Este aqui.

[Atendente]―Isso. Às vezes a memória falha.

[Pai] ―Eu uso Targifor C.

[Atendente]―Como?

[Pai] ―Targifor C. Para a memória.

[Atendente]―Já ouvi falar que não funciona muito bem.

[Pai] ―Para mim funciona.

[Atendente]―Prefiro algo mais caseiro.

[Pai] ―Caseiro?

[Atendente]―É. Beterraba é ótimo.

[Pai] ―Beterraba?

[Atendente]―Alecrim, cebola e amora também.

[Pai] ―Eu adoro amora.

[Atendente]―É bom mesmo.

[Pai] ―Difícil de encontrar.

[Atendente]―Eu encontro numa feira perto de casa.

[Pai] ―Detesto feira.

[Atendente]―Tirando o tumulto, até que me divirto.

[Pai] ―Voltando ao registro.

[Atendente]―Certo. Vou precisar dos documentos da mãe.

[Pai] ―Aqui, estão.

[Atendente]―São casados?

[Pai] ―Três anos.

[Atendente]―Que bom.

[Pai] ―E você?

[Pai] ―Nunca.

[Atendente]―Faltou a pessoa certa.

[Pai] ―Mais ou menos.

[Atendente]―Como assim?

[Pai] ―Muito trabalho.

[Atendente]―Aqui no cartório?

[Pai] ―Não. Eu era autônomo. Marketing de Rede.

[Atendente]―Ih!

[Pai] ―O que foi.

[Atendente]―Normalmente, quem trabalha com isso costuma ser “o chato”.

[Pai] ―Eu era.

[Atendente]―Trabalhou com qual?

[Pai] ―Várias. De suco de fruta probiótico a produto de beleza.

[Atendente]―Desculpe pelo “chato”.

[Pai] ―Que nada. Eu era mesmo.

[Atendente]―Já me colocaram em algumas dessas pirâmides.

[Pai] ―Ganhou alguma coisa?

[Atendente]―Só chatos no meu pé e um monte de correspondência.

[Pai] ―Qual o nome?

[Atendente]―Da pirâmide?

[Pai] ―Não. Da sua filha.

[Atendente]―Ah! É Ana Carla.

[Pai] ―Ana Carla.

[Atendente]―Ana Carla Silva Silvana.

[Pai] ―Rimou.

[Atendente]Ana com Silvana.

[Pai] ―Gosto de rimas.

[Atendente]―Externas? Como as de Camões?

[Pai] ―Prefiro as cruzadas, como as de Azevedo.

[Atendente]―Para mim importa que sejam rítmicas.

[Pai] ―Gosta de ritmos?

[Atendente]―Sim.

[Pai] ―Tem alguma preferência por compasso?

[Atendente]―Gosto dos ternários.

[Pai] ―Valsa é ternário. Mas eu não gosto muito.

[Atendente]―O Jazz também.

E a conversa se estendeu indefinidamente.

Falsos cognatos do Espanhol

Casal de namorados vai a um supermercado de um país onde se fala um dialeto pouco globalizado da língua espanhola. Detalhe, são dois turistas brasileiros só falam um péssimo portunhol.

Ela deslumbrada com as novidades culinárias. Ele, louco para experimentar as bebidas “calientes”.

-Con liciença. Donde posso encuentrar abobrinhas?

-¿Perdón? – pergunta o funcionário sem entender.

-Abobrinha – ela mostra o folheto do supermercado com os produtos em promoção.

-Ah, si. Quieres saber donde está el calabacín.

O casal para de sorrir. Se entreolha.

-Eu disse que esse povo era abusado.

-Calma bem.

-Você viu o que ele disse?

-Calma bem, pode ser um mal entendido.

-Mal entendido uma ova. Olha aqui.

Exaltado, ao gesticular, esbarra em uma funcionária que passava oferecendo churros, numa promoção do supermercado. O churros cai em sua calça e ainda suja o casaco que trazia no braço.

-Mira esto. Ahora está súcio de porro – disse o funcionário tentando ser gentil.

-Sujo de porra porra nenhuma. Você me respeita, seu gringo safado.

-Bem, aqui nós que somos gringos.

-Perdón, señor. Permita-me limpiar tu saco – disse a prestativa distribuidora de churros.

-Peraí! Espera aí! Mas que folga é essa – disse a mulher.

-Estoy a ayudar su novio.

-Não é minha noiva não – disse ele tentando tirar proveito da situação – É só namorada. Me ajuda aqui com o saco.

-Ah! Sou só namorada é?

-Mira. Tu rodilla está súcio – diz o funcionário apontando para o joelho – Y los calcetines también – diz já se abaixando para limpar as meias.

-Peraí, folgado – dá um pulo para trás – Primeiro fala do cabacim dela.

-Que cabacim? – pergunta a namorada.

-De tu novia? – pergunta a funcionária.

-Que noiva, é só namorada.

-Só namorada – resmunga a ex futura noiva.

-Esse cara agora vem com graça. Na minha rodilla não – diante da insistência do funcionário – Deixa que a senhorita aí limpe – apontando para a distribuidora de churros.

-Y los calcetines?

-Para de insistir seu gringo viado.

-Gringo aqui somos nós, já falei.

-Vamos embora daqui – diz puxando a moça – Quer dizer antes, vamos só pegar minhas bebidas.

Indo para a seção de bebidas várias pessoas notam sua roupa suja. Um para para avisar.

-Hay porro en tu rodilla.

-Vai a merda. Gringo. Aqui meu “calcetines” para você – fazendo gesto obsceno.

-¿Estás tarado?

-Tarado são vocês. De olho na rodilla dos outros. Vendo porro onde não existe!

Chegando na seção de bebidas se aproxima do atendente. Que já vai logo tentando avisá-lo gentilmente da calça e meias sujas, mas é grosseiramente cortado.

-Sem comentário sobre minha rodilla. Não tem porro aqui nem no calcetines.

-Sí, señor. Solo lo estava a decir…

-Eu quero saber qual a melhor marca nacional de cerveja de vocês.

-Ah, sí. ¿Te gusta la caña?. A mi también.

-Não rapaz. Nada de cana. Ninguém vai em cana. Foi só um mal entendido ali atrás. Me fale da melhor cachaça de vocês.

-Ah, sí. “Cachaça”. Entiendo. Son brasileños. Te gusta chupar pintón.

Foi a gota d’agua. O casal teve que ser retirado a força pelos seguranças, tamanha a confusão que aprontaram.

-Pueden sacar estes dos – gritava o gerente.

-Não saca arma não. A gente está saindo – gritava o rapaz com “porro” na “rodilla”.

Mais tarde a polícia teve que ser chamada nas proximidades do supermercado. O casal se envolveu em outra confusão. Agora no ponto de ônibus. Disseram que a moça foi perguntar o horário do micro-ônibus que levava para a praia. E ouviu a seguinte resposta.

-Ya se fue. Ha perdido tu buseta.

Recordações – Esquete

Muitos mal entendidos e conflitos vêm a tona quando um casal grava suas recordações para o filho, recém-nascido, ver no futuro.

Recordacoes.pdf

Sobre o Enterro

Olha, avisa para a Juraci que a Dona Cleide ligou avisando que a tia dela faleceu e o enterro vai ser no cemitério “Agora é Tarde” às oito horas.

Tá, certo eu aviso.

Eu vou repetir: avisa para a Juraci que a Dona Cleide ligou avisando que a tia dela faleceu e o enterro vai ser no cemitério “Agora é Tarde” às oito horas.

Deixa eu só anotar pra num esquecer. A Dona Cleide avisou que o enterro dela vai ser às cinco.

Da tia dela.

Da tia da Juraci?

Não da Dona Cleide.

Ah, bom. Dona Cleide avisou que o enterro da tia dela vai ser agora de tarde.

Não o enterro é às oito da manhã.

Ah, certo. O enterro da tia vai ser às oito da manhã.

Isso.

O da Dona Cleide é agora de tarde.

Que é isso? A Dona Cleide não morreu.

Quem é que vai ser enterrado agora de tarde então?

Ninguém.

O senhor falou agora de tarde e às oito horas.

Eu falei que o nome do cemitério é Agora é tarde.

E o enterro.

Às oito horas.

Da tarde?

Da manhã.

Onde?

No Agora é Tarde.

Já enterrou?

Não. O nome do cemitério é Agora é Tarde.

Ah, bom.

Então você avisa a Juraci sobre o enterro?

Da Dona Cleide, né?

Não, da tia Dela.

Da tia da Juraci.

Não, quem faleceu foi a tia da Dona Cleide.

Ah! A tia da Dona Cleide fa… leceu… (repete com dificuldade).

Isso.

Mas o senhor não falou que vai ter enterro?

Não sei quantas vezes.

Quem morreu?

A tia da Dona Cleide.

Mas não foi essa a que fa… le.. ceu?

Isso, mesmo.

E quem morreu?

Olha aqui minha filha, isso é um momento de dor, e não de piada. Um pouco de respeito.

O senhor é que tá me confundindo. Quem morreu e quem fa..le..ceu?

Silêncio.

Olha eu acho que estou forçando demais sua cabecinha. Deixa eu facilitar um pouco. A tia da Dona Cleide MORREU e vai ser enterrada às cinco no Agora é Tarde.

E quem fa… le…?

Esquece essa palavra. Ela só morreu.

Tá certo.

Você avisa?

Aviso.

Posso confiar?

Pode.

Entendeu?

Entendi.

Mesmo?

Mesmo.

Então repete o recado.

Avisar para a Juraci que agora é tarde, a tia dela morreu às oito da manhã e a Dona Cleide vai enterrar.

Não é isso.

Não grita.

Grito porque você é burra.

Não ofende.

Você é sonsa.

Eu vou contar para a Juraci.

Você é analfabeta.

Calma.

É uma tapada.

Calma cuidado com o coração.

Como é que pode ser tão burra.

Cuidado que o senhor vai acabar morrendo igual a sua tia.

Minha tia não morreu, sua débil mental.

Sua tia não é a Dona Cleide?

Não.

Você é sobrinho da Juraci?

Meu deus do céu. Tem mais alguém aí?

A Juraci.

Chama ela pra mim por favor.

Quem quer falar com ela?

Chama ela logo.

Ela me falou para só chamar quando souber quem quer falar com ela.

Caralho, mulher. Fala que é o vizinho da Dona Cleide.

A que morreu, seu Caralho?

Seu caralho é a puta que pariu. Chama sua patroa agora, merda.

Oia a educação, não vai grita com a Dona Juraci que ela é velhinha e sofre do coração.

Então chama ela logo.

O senhor já tá mais calmo.

Estou, estou…

Então eu vou chamar ela, tá seu Caralho.

Seu caralho é a puta que pariu.

Que isso, a sua tia Cleide morreu de quê pra você estar nessa raiva toda.

Por favor, sua energúmena, chama a Juraci.

O senhor tem certeza que quer dar essa notícia pra ela nesse nervosismo todo?

Tenho. Já me acalmei.

O senhor não prefere que eu dê a notícia com mais calma?

Não, pode deixar.

Então eu vou chamar.

Faça o favor.

Então eu vou lá. Tá seu Caralho?

Seu caralho é a puta que pariu. Sua besta.

Vichi…Só vou preparar ela primeiro para não levar muito susto.

Faça como quiser. Só chame ela por favor.

Com licença seu …

Silêncio.

Caralho seu Caralho, puta que pariu.

O que que foi agora, meu saco.

Eu fui avisar pra Dona Juraci que a tia dela morreu, a Dona Cleide ia ser enterrada e que o caralho queria falar com ela agora de tarde e ela teve um ataque. Será que no horário das oito e meia depois do enterro da Dona Cleide não tem um horário sobrando?

Velhinhas em CinePorno