Archive for the ‘ Crônicas ’ Category

Programa de Fidelização

Ao entrar no supermercado, Eduardo é surpreendido pela voz no alto falante.

– Bem vindo, Eduardo. Estamos aqui para servi-lo.

Eduardo se surpreende. Olha para um lado. Olha para outro. Procura uma câmera.

– Fique à vontade, Eduardo. Sinta-se em casa.

Ainda desconfiado, e envergonhado, dada sua costumeira discrição, Eduardo volta a caminhar.

– Eduardo. 37 anos. Pai da Elisa e do Sérgio. Marido da Sra. Rose. Temos prazer em servir sua família.

Cada vez mais sem graça, ele começa a empurrar o carrinho com pressa pouco habitual. Passa pela seção de fraldas.

– Fraldas para a Elisa, né Eduardo. Tamanho GG. Está crescidinha essa menina.

Eduardo olha para os lados. Vermelho de vergonha. Segue para a seção de temperos.

– Pimenta preta, Eduardo. Essa que você pegou a patroa não gosta.

Ele reconhece o erro. Troca o produto e segue apressado.

– Passo rápido pelas cervejas, Eduardo. Não vai tomar aquela hoje? Que pressa é essa. Eduardo. Nosso cliente fiel. Faz parte de nossa história. Foi casado com a Dona Selma, mas não deu certo. Agora está feliz com a Sra. Rose. Não é Eduardo?

Já ofegante. Eduardo deixa o carrinho de lado.

– Que isso? Não vai comprar nada, Eduardo. Que desfeita com a gente.

Ao passar por dois vizinhos, Eduardo desvia o olhar e finge escolher latas de azeitona.

– Você não engana ninguém, Eduardo. Olha aí, seu Lucas e Dona Cleide. Ele está fingindo que não viu vocês. Está fingindo que está escolhendo azeitonas. Nunca comprou azeitona na vida e agora essa falsidade.

Eduardo põe as latas com raiva na prateleira e sai andando escondendo o rosto com uma mão.

– Pôs as latas na prateleira toda nervosinha, derrubando tudo e agora tenta sair disfarçado. Toma jeito de homem, Eduardo, você é pai de família. Nós estamos te vendo, Eduardo. Olha lá, está correndo para a seção de frutas. Quase derrubou a senhora que veio aqui pela primeira vez. Você aí na balança, feche o caminho com seu carrinho. Não deixe ele passar. Eduardo, está tentando dar meia volta gente. Que desespero, torceu o pezinho. Olha que jeito mais meigo de mancar. Nós vamos cobrar essa garrafa de Vodka que você derrubou, Eduardo. Vamos cobrar junto com aquele carnê que venceu dia 5. Ele mostrou o dedo pra gente pessoal. Está todo perdido. Não lembra da saída. Está mancando bem esquisito. Ih! Escorregou. Não sabe ler a placa de piso molhado, Eduardo? Não ajuda ele se levantar não gente. Isso, Eduardo. Corre mancando. Todo torto. Parecendo o Corcunda de Notre Dame. Errou, Eduardo. A saída é a esquerda. Ahhahhaah. Brincadeira, Eduardo. Você estava no caminho certo. Sai da frente gente, que o animal está fora de controle. Isso. Vai embora, Eduardo. De cliente igual a você a gente quer distância. E olha lá. Quase foi atropelado. Causou um engavetamento no semáforo. Que vergonha, Eduardo. Que prejuízo. Cuidado com a calçada. Olha lá. Torceu o outro pé. Que degradação da figura humana. Abraço para a Sra. Rose, Eduardo.

Rapidamente o clima no supermercado volta ao normal. Em seguida entra Artur, que é surpreendido pela voz no alto falante.

– Bem vindo, Eduardo. Estamos aqui para servi-lo…

Falsos cognatos do espanhol II – o médico estrangeiro

Deixando de lado as muitas polêmicas sobre médicos estrangeiros no Brasil, pode-se imaginar algumas situações comicamente trágicas deste momento. Imagine um médico falante de espanhol, que passou por um curso rápido de português, onde apenas mesclou palavras e expressões das duas línguas, e um paciente pouco letrado.

— Com licença, doutor.
— Puede sentar-se, por favor.
— Obrigado – senta-se distante, acostumado com o atendimento frio de muitos médicos do sistema público de saúde.
— No, no, está muy alejado – fazendo sinal para que se sente mais próximo da mesa.
— Que isso, doutor? Tô não.
— Está, si. Muy alejado.
— Tô não, olha aqui – levanta-se e dá pequenos saltos.
— Que se passa? Más cerca.
— Cerca para quê, doutor?
— Cerca – chama-o para perto.

O paciente faz menção de fugir da sala. Mas o simpático doutor é mais rápido. O agarra pelo braço e puxa sua cadeira para perto da mesa. Forçando-o a sentar-se.

— Ah! Entendi. Era para sentar mais perto, né? – ri sem graça.
— Si, si. Cerca – ri também.
— Cerca, cerca – fazendo mímica de cerca em torno deles, rindo mais.
— Si, si. Cerca – rindo mais alto – No alejado.
— Não. Alejado não – já ficando sem graça novamente.
— Alejado não – repete o doutor e ri alto.
— Gente, que que tá acontecendo aqui – diz para si entre as risadas.

Os risos continuam até ficarem insustentáveis.

— Qué te trae por aquí?
— Trae? Quem trae? – acabam-se os risos.
— Usted. Você.
— Conversa fiada, doutor. Não me complica.
— Ah! Si. Complica. Complicado. Onde está complicado?
— No joelho.
— En el cuello?
— Não. Não tenho coelho, não. É no joelho.
— Si, cuello – diz apontando para o pescoço.
— Não é esse cuello aí. É esse aqui, oh – mostra o joelho.
— En la rodilla?
— Rodilha o caralho – começa a sair de si – Rodilha coisa nenhuma.
— Déjame ver.
— Deixo não.
— La rodilla.
— A rodilla não.
— Si, la rodilla.
— No, no. La rodilla, no – tentando imitar o sotaque para ser melhor entendido.
— Fica calmo. Fica frio – diz pausadamente.
— Então fica longe da minha rodilla – diz armando-se.

Uma pequena correria ocorre ao redor da cadeira. O doutor logo fica ofegante, sem perder a calma e simpatia.

— Muy caliente. Muito calor. Vou tirar mi saco – começa a tirar o paletó.
— Mas de jeito nenhum. Guarda ele aí. Quer saber? Eu vou embora.
— No te vayas – interrompendo a passagem pela porta.
— Vaio sim. Uuuhhhh– sem se dar conta do ridículo – Isso tá uma poca vergonha. Uuuhhhh.
— Y tu rodilla – diz apontando o joelho.
— Ah! Isso que é rodilla – diz envergonhado.
— Permita-me – pergunta o doutor se aproximando e analisando – Sente dolor?
— Um pouco. Principalmente quando faz este movimento.
— Compreendo.

Diz levantando e posicionando o estectoscópio.

— Permita-me? – apontando para o coração – E latido no está bueno.
— Que? Que latido?
— El latido de tu corazón.
— Latido do meu coração! Já nem sei se é ofensa ou viadagem mesmo – diz para si enquanto o doutor volta para a mesa.
— Aqui en mi cajón…
— Caixão? Que caixão? Estou só com dor no joelho. Não pode ser tão grave.
— Présta-me tu carné de saúde.
— Carnê? Agora no SUS tem que pagar? Com carné? – dispara pelo corredor, causando grande alvoroço.
— Espere. És importante. Escuche. El latido del corazón – da porta do consultório.
— Que escutar latido do coração o que. Era só dor no joelho – vai dizendo para si mesmo apavorado com o atendimento.

Duas quadras depois, sofre um infarto.

Entrevista Insólita – O advogado

Saindo do tribunal a repórter aborda:

-Estamos aqui, em frente ao tribunal e vamos agora entrevistar o advogado do réu que está saindo neste instante. Boa, tarde. O senhor é o advogado do réu, correto?
-De quem?
-Do réu.
-Réu?
-O senhor é o advogado? – um pouco impaciente vendo o promotor, testemunhas e outros envolvidos no caso indo embora.
-Bom, sou um advogado. Mas não sou “O” advogado – diz naturalmente canastrão.
-É o senhor que está defendendo o acusado?
-Eu sou advogado, minha filha. Não segurança.
-O senhor está de brincadeira?
-Não senhora, estou trabalhando.
-Eu também. Pode responder algumas perguntas?
-Sim.
-O senhor é o advogado do réu, certo? – diz tentando demonstrar calma.
-Réu?
-Ah, não! Quem é o senhor afinal?
-Um advogado.
-De quem?
-Do acusado.
-Até que enfim. O que o senhor tem a dizer do caso?
-Caso? Que caso? Como estão sabendo da… Não tenho nenhum caso! Do que estão falando – inexplicavelmente nervoso.
-Meu senhor, estou falando do caso do acusado.
-Ah, bom – profundamente aliviado – eu não quero saber de caso dele não.
-Não? – incrédula.
-Não! Claro que não. Não fui contratado para me envolver em problemas particulares. Tem um julgamento aqui minha filha. Isso é coisa séria. Não estou nem aí pra um caso – diz com desdém moralista.
-É do julgamento que estou falando, meu senhor. Será possível? O que o senhor achou do júri? – tentando se recompor.
-Júri? Isso não é programa de auditório, minha filha.
-Não é possível – alterada, bem alterada – o senhor está brincando comigo.
-Olha, não tenho tempo para brincadeira, não. Dá licença.
-Não, espera aí. Agora vamos até o fim.
-Até o fim? – questiona com inusitada conotação sexual.
-Até o fim! O senhor tentará redução da pena, se ele for mesmo condenado?
-Pena?
-Ai, socorro! Acha que conseguirá um regime semi-aberto.
-De jeito nenhum. Regime aberto não funciona.
-Como?
-Só regime fechado. Ou fecha a boca ou não emagrece.
-Meu senhor não estou falando disso – diz em desespero.
-Ainda bem, eu não sou nutricionista, sou advogado.
-O senhor é formado?
-E bem formado.
-Em que curso.
-Superior.
-Em que faculdade?
-De curso superior.
-Onde?
-Lá perto de casa.
-É bacharel?
-Sem “bacharia”.
-Sabe alguma coisa de lei?
-Lei áurea, da gravidade… quer mais? – diz em enfrentamento.
-Só uma perguntinha, um testezinho rápido: o Brasil é uma república ou uma federação? – pronta para desmascará-lo.
-Nada disso. Nada de peguinha.
-Então o que?
-O Brasil é Pentacampeão.
-Corta. Vamos embora.

Notícia do além

A campainha toca e Reginaldo corre para atender.

— Julinho?
— E aí!
— O que que você está fazendo aqui? Ou melhor, como é que está aqui? – pergunta pasmo.
— Ué. Vim te ver.
— Me ver Julinho? Mas como? Você não podia estar aqui. Assim…
— Assim?
— É, assim. Aqui na porta. Tocando a campainha… Falando…
— Mas é que eu quero te contar…
— Não, Julinho. Eu não quero saber. Eu me despedi de você ontem, Julinho.
— Eu sei. Mas não podia esquecer de meu amigo…
— Pode me esquecer, Julinho – implorando – Você não pode voltar assim e dizer que não me esqueceu.
— Quem é, Reginaldo – grita a esposa.
— Ninguém. É engano – desesperado – Vai embora, Julinho. Volte para onde deveria estar.
— Mas acontece…
— Acontece que fui no seu enterro ontem. Fiquei até o final. Você ficou lá.
— Mas você não tem curiosidade…
— Não. Não quero saber o que acontece… Peraí. Eu devo estar ficando louco. Você não está aqui, Julinho. Não pode ser. Deve ser uma pegadinha.

Bota a cabeça para fora procurando alguma câmera ou amigos rindo da farsa.

— É claro que sou eu, Reginaldo.
— Então me fala seu nome completo, idade e signo. Agora. Sem gaguejar.
— Júlio da Silva Souza. 35. Peixes.
— Religião.
— Católico.
— Praticante?
— Nem pensar.
— Nome da sua mãe.
— Ela morreu, Reginaldo.
— Morreu mas tem nome.
— Tânia da Silva Aguiar.
— Nome do pai.
— Do meu pai? Eu não conheci meu pai.
— Quase que te peguei agora. Você é bom nisso. Mas vou te desmascarar.
— Seu primeiro carro.
— Só tive moto.
— Boa. Nome do seu cachorro.
— Era gato.
— Tá indo bem. Sua primeira vez.
— O que tem?
— Quando foi?
— Aos 17.
— Com quem foi?
— Não lembro o nome. Mas a Amanda conhecia.
— Fala baixo.
— Quem está aí, Reginaldo? Não é engano pois falou meu nome.
— Um colega, Amanda. Um colega.
— Onde foi?
— O que?
— A primeira vez?
— No fusca do Régis.
— Rapaz. Você é bom mesmo, hein.
— Já falei. Sou eu, Reginaldo.
— Tá bom – já ficando pálido – Fale uma coisa que só nós dois sabemos.
— Aquele dia no ginásio, depois da aula…
— Não. Isso não. Não me venha do além com essa história não.
— Quem é, Reginaldo – Amanda puxa a porta de repente – E que história é essa que ele tá contando. Julinho?

Ela quase tem um treco.

— O que você tá fazendo aqui, Julinho. Eu fui no seu enterro.
— Pois, é. Só queria contar um negócio pro Reginaldo.
— Negócio de onde, Julinho? Do além?
— Não é bem isso. É que…
— Bobagem, Amanda. Não vê que é uma farsas. Isso deve se peruca.
— Não é não. Pode puxar.
— De jeito nenhum que vou pegar em cabeça de defunto.
— Não é bem assim.
— É assim sim. Deve estar frio. Frio e duro. Só deve estar coradinho assim por causa de maquiagem.
— Mas parece demais com o Julinho – Amanda fala hipnotizada – Por que você voltou, Julinho?
—Eu só queria contar para o Reginaldo que…
—Contar nada. É farsa. Sim.
— Já respondi todas as perguntas.
— Tava bem preparado.
— Preparado como?
— Decorou tudo.
— Tem coisa que só eu e você sabemos.
— Como o que? – perguntou Amanda.
— Como o que – corta nervoso – Não sabe nem o nome da primeira dele.
— Você sabe, Reginaldo.
— Foi a… Foi a… Não interessa. Não lembro agora. Não sou eu que preciso provar que estou vivo.
— Não lembro o nome mas lembro quem foi, Amanda. Foi aquela do carnaval do Clube Atlético Marroquinha. Aquela de carona no fusca do Régis.
— A Fabi? Não acredito. Foi com ela! Você acredita que ela hoje é esposa do…
— Amanda. Você enlouqueceu, Amanda. Está de conversa com um defunto – perdido, fora de si.
— Agora aceitou que sou eu – Julinho orgulhoso.
— Aceitei nada. Sai daqui. Isso deve ser uma piada – trêmulo.
— Não. Acho que é ele mesmo.
— Mas como, Amanda. Ele morreu. Ataque fulminante. A gente ficou até o fim. Jogaram terra em cima.
— Mas olha lá. É ele. Sabe até o que eu não sabia do Julinho.
— Pelo menos você, Amandinha.
— Amandinha, não. Amandinha o caralho. Você vem do inferno assustar a gente e ainda chama a Amanda de Amandinha?
— É um jeito carinhoso de falar – argumenta Julinho.
— Carinhoso o cacete. Nunca vi morto carinhoso. Nunca vi morto fora de caixão. Nem sei porque estou conversando com morto. Nem sei porque estou acreditando que aqui tem um morto. Deve ser brincadeira do pessoal da firma.
— Não é brincadeira não, Reginaldo. Quer ver? Julinho, vocês dois sempre foram cheio de segredinho. Conta uma coisa que só vocês sabem.
—Teve aquela vez no ginásio. Nós dois depois da aula…
— Essa história, não – explode Reginaldo – Vem dos quintos dos infernos para difamar a gente. Essa história, não. Vai para outra casa assustar e criar discórdia. Isso aqui é casa de família. Cai fora seu defunto farsante de merda.

Fecha a porta com violência. Tranca. Esconde a chave. Amanda tenta argumentar. Mas ele está irredutível.

— Defunto difamador.

Abre um licor e começa a beber às nove da manhã. Amanda olha pela janela Julinho indo embora, imaginando para onde ia agora. O que ele tinha para contar. Que notícia trazia do além. E que história era aquela do ginásio.
Após um dia de silêncio. Com Reginaldo, trêmulo, bebendo e fumando. Ela fala.

— Reginaldo, meu amor. Amanhã vamos à igreja acender uma vela para ele – depois de um longo silêncio – E a gente podia ir no cemitério. Falar com o pessoal de lá. Ver se estar tudo bem com o Julinho – mais um longo silêncio – Reginaldo?

— O que?
— O que que aconteceu no ginásio?

Ele continuou em silêncio. Hora com a lembrança inevitável do acontecido no ginásio. Hora com o ódio pelo falecido amigo. Dizendo para si mesmo.

— Defunto difamador, só voltou para me complicar… Ela sempre desconfiou…

Nostalgias da informática da década de 90

-Barulho de discagem do modem

-A sensação de glória ao instalar um modem de 14.400bps e aposentar aquele de 9.600bps

-Executar Defrag no DOS

-Instalar Windows 3.11 com 7 disquetes

-Descobrir que o mouse estava sem bolinha (objeto de furto comum na época)

-Os vírus que viravam notoriedade: “Leandro e Kelly”, “I love you”,…

-BBS (impossível de explicar para as gerações atuais)

-Alguém pegando o telefone durante a sofrível conexão. O mais irritante era ouvir a voz distorcida da pessoa saindo do modem: “Alô… Alô… Ai meu filho, me desculpa. Esqueci…”

-Aquele som indescritível do ICQ

-Comprar software pelos correios através de catálogos de revistas.

Zumbis e suas nacionalidades.

Zumbis nunca deixaram de ser moda em Hollywood. Já foram tratados de várias formas diferentes. Mas nenhuma produção cinematográfica, ou obra literária do gênero, classificou-os de acordo com sua naturalidade:

Zumbi Alemão: Só come carne ariana.

Zumbi Norte Americano: Não consegue comer ninguém. Está gordo demais para alcançar as vítimas.

Zumbi Cubano: Come em nome da revolución. Detalhe, come melhor agora do que quando em vida.

Zumbi Holandês: Inofensivo. Está chapado demais para perseguir alguém.

Zumbi Venezuelano: Não come carne imperialista, prefere a bolivariana. Lá a epidemia começou numa tentativa de ressuscitar Chavez para trazê-lo de volta ao poder.

Zumbi Russo: Inofensivo como o holandês, mas por causa da vodka.

Zumbi Inglês: Só ataca exatamente às 18:57, após o chá.

Zumbi Argentino: Não tolera carne brasileira. Age com violência ao ouvir falar do Pelé.

Zumbi Francês: Tem um cheiro particular em relação aos demais. Mas não representa grave perigo. É apenas inconveniente, perseguindo as pessoas e pronunciando arrastadamente e com sotaque “Me comam… Me comam”

Zumbi Africano: Ele te dá duas opções: ser devorado ou comido. A maioria das vítimas vai preferir ser devorada, pois ser comido será mais dolorido.

Zumbi Árabe: Única espécie de zumbi bomba.

Zumbi Chinês: Come carne pirateada, mas de boa qualidade.

Zumbi Norte Koreano: Ainda estão esperando ordens do ditador.

Zumbi Japonês: Não conseguem roer a armadura no Jaspion.

Zumbi Brasileiro: Comportamento varia conforme a região. Come de tudo, bebe de tudo. Mas só dá para saber se é brasileiro se tiver jogo da seleção.

Zumbi Português: Não sabe que virou zumbi.

Outras nacionalidades de zumbis ainda se encontram em estudo e catalogação.

Nelsinho Agiota

Enquanto isso, num pequeno escritório em uma minúscula e velha sala comercial, em um velho prédio no decadente centro da cidade…

 

―Caixa d’Agua Contabilidade, boa tarde. O Siqueira, está sim, só um instante. Siqueira, telefone pra… ―  Siqueira gesticula desesperadamente.

―Ah! É para falar que não está ― diz tampando telefone ― Olha, o Siqueira não está. Não, eu não disse que ele está. Eu… Eu disse… Eu disse que ele estava, agora não está mais. Onde ele foi, ele foi ao banheiro ― gargalhadas.

Siqueira começa a bater nele com um livro de contas.

― Era brincadeira, Siqueira. Era brincadeira ― volta a falar no telefone ― ele foi… foi… ― Siqueira faz mímica de médico ― Ele foi ao médico.

Siqueira gesticula, perguntando quem é.

― Quem gostaria de falar com ele?

Imediatamente se levanta, em pânico.

― Ahhhh! É o Nelsinho Agiota ― aponta para o telefone em desespero ― É o Nelsinho ― balbuciando para Siqueira ― Tudo bem Nelsinho, como vai meu querido. Que horas que o Siqueira volta?

Siqueira faz sinal de que não volta.

― Ele não volta mais hoje. Seu Nelsinho. Por quê? Por quê? ― pergunta para Siqueira que faz mímica de avião ― Porque ele foi viajar. É ele pegou a mala, foi para o médico e de lá ia viajar. Não, não estou curtindo com sua cara não, seu Nelsinho. Que isso? Um cara que ajuda tanto a gente… Que ajuda tanto a gente… Como é que é? Avisar para o Siqueira que… Sequestrou a mulher do Siqueira. Sequestrou o filho do Siqueira. No carro do Siqueira. E só devolve depois que o Siqueira pagar o que deve… O que que eu digo ― tapando o telefone.

Siqueira faz sinal de cortar o pescoço.

― Olha, eu não tô botando fé nesse casamento mais não, viu. O Siqueira vive reclamando que a dona Neide está cheia de nhenhenhem… de quê-quê-quê… Peraí…

Siqueira sugere uma pergunta, fazendo mímica de cachorro.

― O Siqueira está perguntando.

Siqueira lhe mete soco na altura do ombro.

― Ai! O Siqueira não tá perguntando por que não tá aqui. Né? Como é que ele ia perguntar se não tá aqui. Né? Mas… Mas… ele deixou um bilhete, para caso isso acontecesse ― diz sem acreditar no absurdo que está falando ― e no bilhete está dizendo para perguntar… se o senhor… se o senhor ― tenta entender mímica ― se o senhor também sequestrou o cachorro do Siqueira. Sim!?! Não é porque o Siqueira tá dizendo…

Leva outro soco no braço.

― Quer dizer, o bilhete do Siqueira está dizendo que…

Siqueira escreve num papel e mostra a ele.

― Que… que a ração do cachorro é… é… é Farofino. É, Farofino. O quê? Vai botar a dona Neide para falar comigo. Não… Não põe que eu fico sem jeito… Dona Neide ― saúda com falso entusiasmo extremo ― Como é que vai a senhora? Situação chata essa né dona Neide. O Siqueira? O Siqueira não está dona Neide. É sério, ele não está. Oh! Oh! Oh! Dona Neide, não ofende porque eu não tenho nada a ver com isso. Quer saber. Passa pro Nelsinho aí que meu negócio é com ele. Tá um abraço. No da senhora também. Nelsinho, meu querido. Nelsinho, meu querido. Nelsinho meu querido. O negócio é o seguinte ― Siqueira faz diversas mímicas incompreensíveis ― Sabe aquele bilhete que o Siqueira deixou? Pois é, o bilhete ― diz sem graça, incrédulo, tentando ganhar tempo ― Nesse bilhete tem uma pergunta do Siqueira. Ele pergunta se… caso uma situação dessa ocorresse… se nesse caso, se o senhor ficasse com a dona Neide e as crianças… a dívida não estaria perdoada?

Nesse instante Siqueira para com as mímicas e, freneticamente faz sinal de positivo.

― Como é que é? Só se a gente passar o dinheiro do seguro do carro para o senhor?

Siqueira continua, freneticamente fazendo sinal de positivo.

―Mas é claro. Só dá um sumiço no carro que a gente passa o dinheiro. Claro que a gente tem sua conta. Todo mês tem que depositar uma porrada ― diz para si.

Siqueira volta a fazer mímica de cachorro.

―Ó. O Siqueira está pedindo para lembrar…

Novo soco no braço.

―O bilhete do Siqueira está pedindo para lembrar ― enfático ― que a ração do cachorro é… Farofino. Farofino, é… Então tá, seu Nelsinho. Um abraço para o senhor. Divirta-se com a dona Neide. Manda um abraço para as crianças. Tá? Tudo de bom.

Desliga o telefone. Trêmulo. Olha para o Siqueira, que está atônito, e diz rindo já sem forças.

― Uma dívida a menos.

Desmaia na cadeira.

Na fila (possível continuação de polifobia)

P— Boa tarde.

C1— Boa tarde.

P— Aqui que é a fila?

C1—É. Aqui é fila… Mas não sei se é a fila – diz dando ênfase ao final da frase.

P— Como assim? É a fila ou não é?

C1—Sim. É uma fila.

Silêncio.

P—Onde vai dar esta fila?

C1—Logo ali – apontando.

P—Ali, né.

C1—É pra lá mesmo?

P—Sim.

C1—Precisa de senha.

P—Não sei pra quê.

C1—Pra que o quê?

P—A senha ou a fila.

C1—Como?

P—Se tem fila não precisa de senha. Se tem senha não precisa ficar na fila. Mas aqui tem que pegar a senha para entrar na fila. Se ainda fosse fila para pegar a senha, vá lá. Mas senha para pegar a fila é demais.

C1—Nunca pensei nisso.

Silêncio.

C1—Qual é a sua senha?

P—Deve ser a próxima depois da sua.

C1—Talvez não.

P—Como não?

C1—Tinha gente, onde você estava. Mas já foi embora. Qual é sua senha?

P—Prefiro não olhar.

C1—Por quê?

P—Me deixa nervoso.

C1—Por quê?

P—Não sei, não gosto de olhar.

C1—Quer que eu olhe.

P—Faça o favor. Mas não precisa me dizer.

C1—Tá bom!

Silêncio

P—É a próxima?

C1—Depois da minha?

P—É.

C1—Não, é a número…

P—Não precisa dizer – diz com inesperado nervosismo.

C1—O que, o número?

P—É.

C1—Mas por quê?

P—Fico nervoso.

C1—Com o número?

P—É.

C1—Mas por quê?

P—Sei lá.

C1—Parece que o senhor está suando.

P—Nervoso.

C1—Pelo número?

P—Pelo número.

C1—Desculpe.

P—Não foi nada.

Tira um lenço da bolsa e tenta enxugar o suor na testa.

P—Que que isso? – dando um fóbico passo para trás.

C1—Só limpando o suor – assustada com a reação.

P—Pode deixar – ofegante.

C1—Mas o senhor não está bem – insistindo e ele se esquivando.

A luta continua até que ele explode.

P—Não me toca. Não me toca.

C1—O senhor não está bem. O que o senhor tem?

P—Nem te falo. Um monte de coisa.

C1—O senhor não se lembra o que tem? Se tem que tomar algum remédio…

P—Não. Eu… Eu… Remédio? Será isso?

C1—Então é o remédio?

P—Que remédio?

C1—Não sei. O senhor que falou.

P—Não estou lembrando de nenhum remédio. Será isso?

Pega seu pequeno caderno e começa a folhear.

P—Remédio. Remédio. Não estou vendo nada sobre remédio – lê diversos trechos, mas nenhuma referência a remédio – Acho que não tem remédio. Só se eu esqueci de anotar.

C1—O senhor costuma ter essas ausências?

P—Como assim, ausência?

C1—Isso, de ficar esquecendo as coisas.

P—Você também acha que tenho amnésia?

C1—Amin… o que?

P—Que estou perdendo a memória?

C1—Parece.

P—Ai, eu sabia que isso estava acontecendo. Já estão notando.

C1—O senhor quer minha senha pra ser atendido mais rápido? Ou melhor, vou pedir para aquele senhor no início da fila. É caso de emergência.

P—Não precisa. Não adianta – recompondo-se.

C1—Mas daqui a pouco não vai dar tempo de o senhor ser atendido hoje. Olhe a hora – diz mostrando o relógio.

P—Ai, não. Por favor, fique longe de mim.

C1—Meu senhor, já são cinco e meia e o tempo está passando e…

P—Não quero saber. Fique longe de mim – encurralado pelo próprio desespero.

C1—Mas sua senha é a 154!

P—Eu não quero saber do número, já falei.

C1—E a minha é a próxima. É a 75.

P—Eu não quero saber – desesperado.

C1—Olhe o número lá no painel.

Em um rápido movimento ela agarra um pequeno banco e se aproxima dele

C1—Pelo menos se sente um pouco.

P—Não – tropeça nas pernas e se arrasta para trás – eu não posso – apontando para o banco.

C1—Prefere ficar sentado no chão?

Ao se dar conta da posição, se estira no chão.

C1—Olha lá! Já é minha vez. Não quer entrar no meu lugar? Decida logo o tempo está passando.

P—Não. Não – estrebuchando – pode ir. Pode ir.

C1—Tá. Bom. Espero que o senhor melhore.

Ela entra.

P—Ai, meu coração. Ai, meu coração. Estou tonto. Será que eu uso sublingual?

Começa a procurar, em desespero, a palavra sublingual no caderno. Quando ela volta.

C1—Olha. Como já são quase seis, o doutor disse que a próxima senha será a 154. Anota no caderno. Não esquece.

E ele sofre seu primeiro infarto fóbico.

Polifobia

Personagens:     N[ Narrador/psicopatologista]  

                               P[ Personagem/sujeito]

 

N—Eis aqui uma oportunidade única para psicopatologistas identificarem e estudarem, em uma só mente, inúmeros transtornos de ansiedade, causados pelas mais banais situações cotidianas.

 Observa por alguns instantes o sujeito, que aos poucos vai ficando inquieto.

 P—Tudo bem, senhor?

 O narrador continua observando, sem se manifestar. O sujeito vai se manifestando desconfortável.

 P—Pois não.

 O narrador não muda sua atitude.

 P—O senhor quer parar de me olhar – explode.

N—Escopofobia. Medo de estar sendo olhado ………. Muitos de vocês podem estar se dizendo que este é um mal comum. Todos nós nos sentiríamos incomodados em diferentes graus ao sermos observados, em silêncio, continuamente – diz provocando novamente o sujeito – Mas posso provar que se trata de um caso raro de psicopatologia.

 Aproxima-se do sujeito e estende a mão.

 N—Tudo bem?

P—Tudo – responde evitando o contato.

N—Como vai? – tenta bater no ombro.

P—Bem, já disse – esquivando o ombro.

N—Que camisa bonita – tenta tocá-la.

P—É né! – se esforçando para não ser tocado.

N—Cortou o cabelo?

P—Não, tá igual a ontem! – se esquivando.

N—A barriga está em forma.

P—Dieta – esquivando.

N—E esse sapato? – tenta tocá-lo com o pé.

P—Tava de promoção – saltando.

N—Deixa eu te dar um abraço.

P—Não, obrigado – escapa por entre os braços e busca canto oposto.

N—É ou não é um caso clássico de afefobia. Medo de ser tocado. Sei que ainda podem estar incrédulos da dimensão deste caso. Irei mostrar mais três sintomas claros de fobia. Caro amigo – se aproximando do sujeito que ameaça esquiva – tudo bem, falarei daqui. Pode nos fazer um pequeno favor

P—Sim.

N—Tem certeza?

P—É algo simples mesmo? – fazendo menção à distância entre eles.

N—Certamente.

P—Tudo bem.

N—Conte até dez.

P—O que?

N—Conte até dez.

 Intimidado, ele começa.

 P—Um, dois… três… quatro…

 Diante de sua aparente dificuldade o narrador o apressa.

 N—Vamos. Algum problema. Até dez.

P— Cinco – as pausas vão se tornando maiores e ele vai ficando ofegante.

N—O tempo está passando. Já vai ser um minuto e nada de contar.

P—Seis – mais nervoso.

N—Vamos logo. Lá se vão dois minutos.

P—Sete – mais nervoso.

N—Três minutos. Olhe no meu relógio – aproxima-se mostrando o relógio.

P—Oito, nove, dez – termina em explosão, protegendo-se do narrador.

 O narrador o observa aquele triste quadro.

 N—Alguém saberia dizer quais fobias temos aqui? Alguém… Aritmofobia. O sujeito demonstrou claro medo de números. Sem me delongar demais com esta demonstração, provoquei outras duas situações correlatas para sua ansiedade. O Tempo e o relógio. Cronofobia e cronomentrofobia – sorri orgulhoso de si – Ao mesmo tempo demonstra falsa pena.

 Busca uma cadeira. Coloca-a próxima ao sujeito.

 N—Desculpe por tudo. Sente-se por favor.

Numa reação automática o sujeito senta. Seu processo de recuperação se inverte. Volta a ficar ofegante. Até que se dá conta de si e levanta rapidamente.

N—Catisfobia. Medo de se sentar. Coisa que vocês não tem. Com certeza – volta-se ao sujeito – aposto que, com sua curta memória, não se lembra de nada do que aconteceu até aqui.

Sujeito começa a divagar, recuperando trechos da conversa e sugerindo recordações.

P—Patologia. Psicopatologia. Ele veio falar de psicopatologia. Psicopatologia nas… nas situações cotidianas – começa a anotar – As patologias acontecem no cotidiano. Transtornos. Eu sou um exemplo. Transtorno de ansiedade nas situações cotidianas. É isso – nervosismo crescente – Ele ficou me olhando. Deu nome de fobia. Tentou me tocar. Outro nome de fobia. Como é que se chama mesmo? – angustiado – Como é o nome da fobia mesmo?

O narrador permanece estático. Orgulhoso de seu poder.

P—Éééé. Tem. Mais. O que veio depois. O relógio. Falou do relógio. Outra fobia. Não consigo me lembrar – bate na cabeça – Os números. Depois vieram os números na cadeira. Eu não sento – gritou como se respondesse algo – E, agora… agora… agora… eu não me lembro mais – contendo o desespero.

N—Amnesifobia. O sujeito tem medo de perder a memória. E de fato perde, tamanha a ansiedade. Confesso que nunca vi o caso em um sujeito de tão pouca idade. Senhores – conclusivo – poderia me delongar aqui com outras demonstrações deste rico exemplar de transtornos de ansiedade. Poderia demonstrar sua fonofobia, medo de vozes, sua mitofobia, medo de mitos, sua necrofobia, medo da morte ou de mortos. E poderia inclusive provocar aqui algo raro, um paradoxo: poderia provocar tanto a afobia, o medo de não sentir medo, e a fobofobia, medo das próprias fobias. Mas não, ao invés disso, imaginemos o cotidiano deste sujeito. Imaginemos como convive, como trabalha, como caminha, como come, como dorme. Imaginemos….

Continua… Aceita-se sugestões….

A tradutora do Google – Parte 1

A tradutora do Google

Parte 1

 

Nos tempos modernos, com o advento da internet, as relações sociais e afetivas sofreram sérias transformações. Quem antes era Nerd agora é Geek. Quem antes tinha agenda cheia de amigos, agora tem Facebook e Orkut lotados. Quem antes era popular e vivia nas rodas, agora dá twitts e tem vários seguidores. Quem antes era solitário, agora tem solução.

Altair era um desses solitários. Desde a infância ficava isolado. O pai mandava ele jogar bola, para ver se enturmava.

Olha lá. Fica só na banheira e não participa do jogo.

A mãe, mais complacente, defendia.

Deixa, é coisa da idade. Daqui uns dias na escola estará cheio de amigos.

E na escola Altair era destaque. Ou melhor, destacado da turma. Sentava no canto esquerdo da sala. Quase entrando na quina da parede. Só não o fazia porque lá já tinha cupim, e ele não se misturava.

Não participa nem de bagunça. O professor nem se lembra dele.

O pai cutucava.

Deixa. Na adolescência vai estar cheio de colegas andando de skate e indo ao shopping.

Na adolescência Altair só saia do quarto para a faxineira dar um trato. Trato no quarto, diga-se de passagem.

E assim Altair passou a vida. Passou em contabilidade no vestibular. Ninguém lembrou dele no dia do trote. Escolheu o conhecido canto esquerdo da sala durante todo o curso. Os colegas se assustaram quando o viram na formatura.

Quem é esse aí?

Deixa. Um dia ele conhece uma moça boa e vai estar rodeado de parentes e crianças.

A mãe ainda insistia. O pai só o via nas festas de fim de ano. Seu lugar já estava sempre reservado no canto da sala.

Altair abriu um escritório. Contratou uma secretária bastante competente para manter contato com o mundo lá fora. E ele só ficava no canto do escritório. Fazendo seu trabalho. Muito bem feito por sinal.

Mas um dia ele cansou. Cansou, não. É algo dinâmico demais para Altair. Ele se sentiu levemente entediado. Depois de três décadas de silêncio, era o mínimo que podia sentir.

Resolveu ir a um encontro de contadores. Lugar melhor para solitários, não consigo imaginar. Conversa vai, conversa vem. Altair no canto, é claro. De repente um antigo vizinho o reconheceu.

Cumprimentos corriqueiros. Perguntas sobre a família. O ponche já estava subindo e pela primeira vez Altair falou mais que o necessário.

Solidão.

Foi a resposta mais significativa que dera a uma pergunta em anos.

O colega, especialista no assunto, foi imediatamente prestativo.

Os tempos são outros Altair. Você já usou o tradutor do Google?

Altair fez que não.

Acesse este site aqui – anotou o endereço – lá tem vários diálogos. Pode escolher o que convier. No começo é estranho, confesso. Mas com o tempo a gente até sente falta daquela voz formal e pausada.

E Altair ficou com aquilo na cabeça. Cabeça que doeu um pouco no outro dia.

Quando chegou em casa, não duvidou. Colocou seu netbook na cozinha acessou o site. Escolheu um diálogo intitulado “Rotina 3”. Entrou no Gmail. Entrou no tradutor do Google. Colou o texto e clicou no botão “Ouvir”.

Boa noite, meu bem.

A voz pausada e formal explorou lugares nunca antes alcançados por uma onda sonora no apartamento de Altair. Ele demorou um pouco para tomar coragem.

Boa noite – disse de costas para o computador, enquanto preparava algo rápido, tentando passar uma imagem de pessoa centrada, autossuficiente.

A casa estava triste sem você – a voz continuou.

Ele quase deixou o saleiro de inox cair. Tamanho foi o tremor. Não respondeu.

Hoje não saí. Estava com dor de cabeça mas já passou.

Que bom – respondeu ele desajeitado, sem acreditar no que dizia. Se sentia acuado na cozinha invadida por um espectro feminino.

Fiquei pensando em você o dia inteiro.

Altair quase desmoronou. É nisso que dá três décadas de energia acumulada.

Eu também.

Disse engasgado. Olhando para o netbook com olhar levemente comovido.

Você pensou em mim, querido?

Eu acabei de dizer isso… querida.

Ah! Eu fico tão feliz quando chega em casa – a voz mecânica do tradutor quase soou melancólica e doce.

O dia no trabalho foi corrido – disse espontaneamente entrando no clima, enquanto terminava de preparar a janta, para um, é claro – E, para piorar, minha mãe resolveu ligar para dar notícias.

E com foi o dia no trabalho?

Mas eu acabei de falar que foi corrido.

Era incrível. Nestes anos todos Altair inconscientemente parecia ter ensaiado o cotidiano de um casal, pois expressou-se com certo tom de agressividade diante da segunda pergunta repetitiva.

Eu tenho tanto orgulho de você ser tão bem sucedido. Ainda mais neste mercado tão competitivo – ela continuou.

Até que não é muito competitivo não. Ainda mais depois que implantaram prova registro profissional. Agora está faltando profissional no mercado. Tem empresa desesperada ligando para gente dizendo…

Quando começava se empolgar com o diálogo, coisa inconcebível para qualquer um que conheça Altair, a voz continuou friamente.

Têm notícia da sua mãe?

Mas eu falei agora pouco que ela ligou, não falei? – incrível, Altair era fluente numa discussão. Algo inimaginável – E o que é que tem minha mãe. Vamos falar de nós – aumentou o tom.

Que tal a gente pedir uma pizza e comer vendo um filme?

Peraí, você estava vendo o tempo todo que eu estava preparando a minha janta… Quer dizer nossa janta – concertou sem jeito para não parecer egocêntrico, mas sem perder o jogo de cintura – e agora vem me dizer que é para pedir uma pizza? O que está havendo aqui. Você quer me irritar é?

Agora a coisa saía do limite. Altair declarara aberta a primeira discussão com… com … com sua… Como é que vamos classificar aqui. Com sua companheira, digamos.

Para mim pode ser de brócolis.

Quer saber, peça uma para você. Conecte aí numa pizzaria online e se vire.

Saiu deixando a voz falando sozinha.

Ah! E peça uma Coca-Cola também.

Não enche – gritou de longe achando que aquilo era provocação.

Hoje vai passar Lagoa Azul. Quero assistir com você.

Lagoa Azul? Mas que merda é essa? Quem disse que eu quero assistir Lagoa Azul?

Você precisa ligar para sua mãe.

Eu já disse que falei com ela hoje – gritou do banheiro.

Amanhã você vai trabalhar?

Claro que vou. Por que está perguntando isso?

Amanha de tarde vai passar E o Vento Levou.

Se eu não quero assistir Lagoa Azul, vou querer assistir E o Vento Levou na sessão da tarde?

Você já pediu a pizza?

Que pizza?

Bem. Daí para frente o diálogo se tornou extremamente improdutivo. Embora já estivesse pouco construtivo. Os vizinhos estranharam a discussão. Nunca nem haviam notado a presença de Altair, que nem sequer pegava elevador para ir de escada sozinho.

O porteiro estranhou Altair sair de casa tarde da noite. Contrariado. E só voltar no outro dia depois do expediente. Olhos fundos, inchados. Desarrumado. Com uma pizza, cheirando brócolis ao longe, um buque de flores vermelhas e um DVD remasterizado de Lagoa Azul.

Bem, ele pensou o dia inteiro e achou que devera fazer as pazes.