Arquivo para setembro \30\+00:00 2013

Programa de Fidelização

Ao entrar no supermercado, Eduardo é surpreendido pela voz no alto falante.

– Bem vindo, Eduardo. Estamos aqui para servi-lo.

Eduardo se surpreende. Olha para um lado. Olha para outro. Procura uma câmera.

– Fique à vontade, Eduardo. Sinta-se em casa.

Ainda desconfiado, e envergonhado, dada sua costumeira discrição, Eduardo volta a caminhar.

– Eduardo. 37 anos. Pai da Elisa e do Sérgio. Marido da Sra. Rose. Temos prazer em servir sua família.

Cada vez mais sem graça, ele começa a empurrar o carrinho com pressa pouco habitual. Passa pela seção de fraldas.

– Fraldas para a Elisa, né Eduardo. Tamanho GG. Está crescidinha essa menina.

Eduardo olha para os lados. Vermelho de vergonha. Segue para a seção de temperos.

– Pimenta preta, Eduardo. Essa que você pegou a patroa não gosta.

Ele reconhece o erro. Troca o produto e segue apressado.

– Passo rápido pelas cervejas, Eduardo. Não vai tomar aquela hoje? Que pressa é essa. Eduardo. Nosso cliente fiel. Faz parte de nossa história. Foi casado com a Dona Selma, mas não deu certo. Agora está feliz com a Sra. Rose. Não é Eduardo?

Já ofegante. Eduardo deixa o carrinho de lado.

– Que isso? Não vai comprar nada, Eduardo. Que desfeita com a gente.

Ao passar por dois vizinhos, Eduardo desvia o olhar e finge escolher latas de azeitona.

– Você não engana ninguém, Eduardo. Olha aí, seu Lucas e Dona Cleide. Ele está fingindo que não viu vocês. Está fingindo que está escolhendo azeitonas. Nunca comprou azeitona na vida e agora essa falsidade.

Eduardo põe as latas com raiva na prateleira e sai andando escondendo o rosto com uma mão.

– Pôs as latas na prateleira toda nervosinha, derrubando tudo e agora tenta sair disfarçado. Toma jeito de homem, Eduardo, você é pai de família. Nós estamos te vendo, Eduardo. Olha lá, está correndo para a seção de frutas. Quase derrubou a senhora que veio aqui pela primeira vez. Você aí na balança, feche o caminho com seu carrinho. Não deixe ele passar. Eduardo, está tentando dar meia volta gente. Que desespero, torceu o pezinho. Olha que jeito mais meigo de mancar. Nós vamos cobrar essa garrafa de Vodka que você derrubou, Eduardo. Vamos cobrar junto com aquele carnê que venceu dia 5. Ele mostrou o dedo pra gente pessoal. Está todo perdido. Não lembra da saída. Está mancando bem esquisito. Ih! Escorregou. Não sabe ler a placa de piso molhado, Eduardo? Não ajuda ele se levantar não gente. Isso, Eduardo. Corre mancando. Todo torto. Parecendo o Corcunda de Notre Dame. Errou, Eduardo. A saída é a esquerda. Ahhahhaah. Brincadeira, Eduardo. Você estava no caminho certo. Sai da frente gente, que o animal está fora de controle. Isso. Vai embora, Eduardo. De cliente igual a você a gente quer distância. E olha lá. Quase foi atropelado. Causou um engavetamento no semáforo. Que vergonha, Eduardo. Que prejuízo. Cuidado com a calçada. Olha lá. Torceu o outro pé. Que degradação da figura humana. Abraço para a Sra. Rose, Eduardo.

Rapidamente o clima no supermercado volta ao normal. Em seguida entra Artur, que é surpreendido pela voz no alto falante.

– Bem vindo, Eduardo. Estamos aqui para servi-lo…

Sobre o Enterro – Esquete

Um telefonema. Um recado urgente sobre um enterro. Uma diarista que não consegue entender e muito menos memorizar o recado. Muita confusão, discussão e um final trágico.

─Olha, avisa para a Juraci que a Dona Cleide ligou avisando que a tia dela faleceu e o enterro vai ser no cemitério “Agora é Tarde” às oito horas.
─Tá, certo eu aviso.
─Eu vou repetir: avisa para a Juraci que a Dona Cleide ligou avisando que a tia dela faleceu e o enterro vai ser no cemitério “Agora é Tarde” às oito horas.
─Deixa eu só anotar pra num esquecer. A Dona Cleide avisou que o enterro dela vai ser às cinco.
─Da tia dela.
─Da tia da Juraci?
─Não da Dona Cleide.
─Ah, bom. Dona Cleide avisou que o enterro da tia dela vai ser agora de tarde.
─Não o enterro é às oito da manhã.
─Ah, certo. O enterro da tia vai ser às oito da manhã.
─Isso.
─O da Dona Cleide é agora de tarde.
─Que é isso? A Dona Cleide não morreu.
─Quem é que vai ser enterrado agora de tarde então?
─Ninguém.
─O senhor falou agora de tarde e às oito horas.
─Eu falei que o nome do cemitério é Agora é tarde.
─E o enterro.
─Às oito horas.
─Da tarde?
─Da manhã.
─Onde?
─No Agora é Tarde.
─Já enterrou?
─Não. O nome do cemitério é Agora é Tarde.
─Ah, bom.
─Então você avisa a Juraci sobre o enterro?
─Da Dona Cleide, né?
─Não, da tia Dela.
─Da tia da Juraci.
─Não, quem faleceu foi a tia da Dona Cleide.
─Ah! A tia da Dona Cleide fa… leceu… (repete com dificuldade).
─Isso.
─Mas o senhor não falou que vai ter enterro?
─Não sei quantas vezes.
─Quem morreu?
─A tia da Dona Cleide.
─Mas não foi essa a que fa… le.. ceu?
─Isso, mesmo.
─E quem morreu?
─Olha aqui minha filha, isso é um momento de dor, e não de piada. Um pouco de respeito.
─O senhor é que tá me confundindo. Quem morreu e quem fa..le..ceu?

Silêncio.

─Olha eu acho que estou forçando demais sua cabecinha. Deixa eu facilitar um pouco. A tia da Dona Cleide MORREU e vai ser enterrada às cinco no Agora é Tarde.
─E quem fa… le…?
─Esquece essa palavra. Ela só morreu.
─Tá certo.
─Você avisa?
─Aviso.
─Posso confiar?
─Pode.
─Entendeu?
─Entendi.
─Mesmo?
─Mesmo.
─Então repete o recado.
─Avisar para a Juraci que agora é tarde, a tia dela morreu às oito da manhã e a Dona Cleide vai enterrar.
─Não é isso.
─Não grita.
─Grito porque você é burra.
─Não ofende.
─Você é sonsa.
─Eu vou contar para a Juraci.
─Você é analfabeta.
─Calma.
─É uma tapada.
─Calma cuidado com o coração.
─Como é que pode ser tão burra.
─Cuidado que o senhor vai acabar morrendo igual a sua tia.
─Minha tia não morreu, sua débil mental.
─Sua tia não é a Dona Cleide?
─Não.
─Você é sobrinho da Juraci?
─Meu deus do céu. Tem mais alguém aí?
─A Juraci.
─Chama ela pra mim por favor.
─Quem quer falar com ela?
─Chama ela logo.
─Ela me falou para só chamar quando souber quem quer falar com ela.
─Caralho, mulher. Fala que é o vizinho da Dona Cleide.
─A que morreu, seu Caralho?
─Seu caralho é a puta que pariu. Chama sua patroa agora, merda.
─Oia a educação, não vai grita com a Dona Juraci que ela é velhinha e sofre do coração.
─Então chama ela logo.
─O senhor já tá mais calmo.
─Estou, estou…
─Então eu vou chamar ela, tá seu Caralho.
─Seu caralho é a puta que pariu.
─Que isso, a sua tia Cleide morreu de quê pra você estar nessa raiva toda.
─Por favor, sua energúmena, chama a Juraci.
─O senhor tem certeza que quer dar essa notícia pra ela nesse nervosismo todo?
─Tenho. Já me acalmei.
─O senhor não prefere que eu dê a notícia com mais calma?
─Não, pode deixar.
─Então eu vou chamar.
─Faça o favor.
─Então eu vou lá. Tá seu Caralho?
─Seu caralho é a puta que pariu. Sua besta.
─Vichi…Só vou preparar ela primeiro para não levar muito susto.
─Faça como quiser. Só chame ela por favor.
─Com licença seu …

Silêncio.

─Caralho seu Caralho, puta que pariu.
─O que que foi agora, meu saco.
─Eu fui avisar pra Dona Juraci que a tia dela morreu, a Dona Cleide ia ser enterrada e que o caralho queria falar com ela agora de tarde e ela teve um ataque. Será que no horário das oito e meia depois do enterro da Dona Cleide não tem um horário sobrando?

Falsos cognatos do espanhol II – o médico estrangeiro

Deixando de lado as muitas polêmicas sobre médicos estrangeiros no Brasil, pode-se imaginar algumas situações comicamente trágicas deste momento. Imagine um médico falante de espanhol, que passou por um curso rápido de português, onde apenas mesclou palavras e expressões das duas línguas, e um paciente pouco letrado.

— Com licença, doutor.
— Puede sentar-se, por favor.
— Obrigado – senta-se distante, acostumado com o atendimento frio de muitos médicos do sistema público de saúde.
— No, no, está muy alejado – fazendo sinal para que se sente mais próximo da mesa.
— Que isso, doutor? Tô não.
— Está, si. Muy alejado.
— Tô não, olha aqui – levanta-se e dá pequenos saltos.
— Que se passa? Más cerca.
— Cerca para quê, doutor?
— Cerca – chama-o para perto.

O paciente faz menção de fugir da sala. Mas o simpático doutor é mais rápido. O agarra pelo braço e puxa sua cadeira para perto da mesa. Forçando-o a sentar-se.

— Ah! Entendi. Era para sentar mais perto, né? – ri sem graça.
— Si, si. Cerca – ri também.
— Cerca, cerca – fazendo mímica de cerca em torno deles, rindo mais.
— Si, si. Cerca – rindo mais alto – No alejado.
— Não. Alejado não – já ficando sem graça novamente.
— Alejado não – repete o doutor e ri alto.
— Gente, que que tá acontecendo aqui – diz para si entre as risadas.

Os risos continuam até ficarem insustentáveis.

— Qué te trae por aquí?
— Trae? Quem trae? – acabam-se os risos.
— Usted. Você.
— Conversa fiada, doutor. Não me complica.
— Ah! Si. Complica. Complicado. Onde está complicado?
— No joelho.
— En el cuello?
— Não. Não tenho coelho, não. É no joelho.
— Si, cuello – diz apontando para o pescoço.
— Não é esse cuello aí. É esse aqui, oh – mostra o joelho.
— En la rodilla?
— Rodilha o caralho – começa a sair de si – Rodilha coisa nenhuma.
— Déjame ver.
— Deixo não.
— La rodilla.
— A rodilla não.
— Si, la rodilla.
— No, no. La rodilla, no – tentando imitar o sotaque para ser melhor entendido.
— Fica calmo. Fica frio – diz pausadamente.
— Então fica longe da minha rodilla – diz armando-se.

Uma pequena correria ocorre ao redor da cadeira. O doutor logo fica ofegante, sem perder a calma e simpatia.

— Muy caliente. Muito calor. Vou tirar mi saco – começa a tirar o paletó.
— Mas de jeito nenhum. Guarda ele aí. Quer saber? Eu vou embora.
— No te vayas – interrompendo a passagem pela porta.
— Vaio sim. Uuuhhhh– sem se dar conta do ridículo – Isso tá uma poca vergonha. Uuuhhhh.
— Y tu rodilla – diz apontando o joelho.
— Ah! Isso que é rodilla – diz envergonhado.
— Permita-me – pergunta o doutor se aproximando e analisando – Sente dolor?
— Um pouco. Principalmente quando faz este movimento.
— Compreendo.

Diz levantando e posicionando o estectoscópio.

— Permita-me? – apontando para o coração – E latido no está bueno.
— Que? Que latido?
— El latido de tu corazón.
— Latido do meu coração! Já nem sei se é ofensa ou viadagem mesmo – diz para si enquanto o doutor volta para a mesa.
— Aqui en mi cajón…
— Caixão? Que caixão? Estou só com dor no joelho. Não pode ser tão grave.
— Présta-me tu carné de saúde.
— Carnê? Agora no SUS tem que pagar? Com carné? – dispara pelo corredor, causando grande alvoroço.
— Espere. És importante. Escuche. El latido del corazón – da porta do consultório.
— Que escutar latido do coração o que. Era só dor no joelho – vai dizendo para si mesmo apavorado com o atendimento.

Duas quadras depois, sofre um infarto.

Paralelos da sala de aula

Audiovisual produzido para a oficina de vídeo arte, ministrada por Tirotti. Evento realizado pelo SESC de Chapecó.

Mapeamento de jogos educacionais

Resumo

O processo de aprendizagem não deve se limitar a práticas pedagógicas tradicionais, tendo em vista a contínua e crescente influência da tecnologia no comportamento das gerações atuais. O uso de softwares educacionais passa a ser um importante fator no aprendizado, ao permitir abordagens não lineares, multissensoriais e afetivas. Este trabalho é subproduto de uma pesquisa sobre tecnologias educacionais e apresenta um levantamento de jogos educacionais livres, envolvendo a análise de diversos critérios técnicos e pedagógicos. O resultado deste trabalho é um mapeamento de jogos para diversas áreas, bem como sugestões de práticas pedagógicas que facilitem sua incorporação ao aprendizado

Palavras-chave: Jogos educacionais. Nativos digitais. Tecnologia na educação

Artigo publicado na revista Espaço Pedagógico da Universidade de Passo Fundo:http://www.upf.br/seer/index.php/rep/article/view/3150