Arquivo para agosto \27\+00:00 2013

Entrevista Insólita – O advogado

Saindo do tribunal a repórter aborda:

-Estamos aqui, em frente ao tribunal e vamos agora entrevistar o advogado do réu que está saindo neste instante. Boa, tarde. O senhor é o advogado do réu, correto?
-De quem?
-Do réu.
-Réu?
-O senhor é o advogado? – um pouco impaciente vendo o promotor, testemunhas e outros envolvidos no caso indo embora.
-Bom, sou um advogado. Mas não sou “O” advogado – diz naturalmente canastrão.
-É o senhor que está defendendo o acusado?
-Eu sou advogado, minha filha. Não segurança.
-O senhor está de brincadeira?
-Não senhora, estou trabalhando.
-Eu também. Pode responder algumas perguntas?
-Sim.
-O senhor é o advogado do réu, certo? – diz tentando demonstrar calma.
-Réu?
-Ah, não! Quem é o senhor afinal?
-Um advogado.
-De quem?
-Do acusado.
-Até que enfim. O que o senhor tem a dizer do caso?
-Caso? Que caso? Como estão sabendo da… Não tenho nenhum caso! Do que estão falando – inexplicavelmente nervoso.
-Meu senhor, estou falando do caso do acusado.
-Ah, bom – profundamente aliviado – eu não quero saber de caso dele não.
-Não? – incrédula.
-Não! Claro que não. Não fui contratado para me envolver em problemas particulares. Tem um julgamento aqui minha filha. Isso é coisa séria. Não estou nem aí pra um caso – diz com desdém moralista.
-É do julgamento que estou falando, meu senhor. Será possível? O que o senhor achou do júri? – tentando se recompor.
-Júri? Isso não é programa de auditório, minha filha.
-Não é possível – alterada, bem alterada – o senhor está brincando comigo.
-Olha, não tenho tempo para brincadeira, não. Dá licença.
-Não, espera aí. Agora vamos até o fim.
-Até o fim? – questiona com inusitada conotação sexual.
-Até o fim! O senhor tentará redução da pena, se ele for mesmo condenado?
-Pena?
-Ai, socorro! Acha que conseguirá um regime semi-aberto.
-De jeito nenhum. Regime aberto não funciona.
-Como?
-Só regime fechado. Ou fecha a boca ou não emagrece.
-Meu senhor não estou falando disso – diz em desespero.
-Ainda bem, eu não sou nutricionista, sou advogado.
-O senhor é formado?
-E bem formado.
-Em que curso.
-Superior.
-Em que faculdade?
-De curso superior.
-Onde?
-Lá perto de casa.
-É bacharel?
-Sem “bacharia”.
-Sabe alguma coisa de lei?
-Lei áurea, da gravidade… quer mais? – diz em enfrentamento.
-Só uma perguntinha, um testezinho rápido: o Brasil é uma república ou uma federação? – pronta para desmascará-lo.
-Nada disso. Nada de peguinha.
-Então o que?
-O Brasil é Pentacampeão.
-Corta. Vamos embora.

Notícia do além

A campainha toca e Reginaldo corre para atender.

— Julinho?
— E aí!
— O que que você está fazendo aqui? Ou melhor, como é que está aqui? – pergunta pasmo.
— Ué. Vim te ver.
— Me ver Julinho? Mas como? Você não podia estar aqui. Assim…
— Assim?
— É, assim. Aqui na porta. Tocando a campainha… Falando…
— Mas é que eu quero te contar…
— Não, Julinho. Eu não quero saber. Eu me despedi de você ontem, Julinho.
— Eu sei. Mas não podia esquecer de meu amigo…
— Pode me esquecer, Julinho – implorando – Você não pode voltar assim e dizer que não me esqueceu.
— Quem é, Reginaldo – grita a esposa.
— Ninguém. É engano – desesperado – Vai embora, Julinho. Volte para onde deveria estar.
— Mas acontece…
— Acontece que fui no seu enterro ontem. Fiquei até o final. Você ficou lá.
— Mas você não tem curiosidade…
— Não. Não quero saber o que acontece… Peraí. Eu devo estar ficando louco. Você não está aqui, Julinho. Não pode ser. Deve ser uma pegadinha.

Bota a cabeça para fora procurando alguma câmera ou amigos rindo da farsa.

— É claro que sou eu, Reginaldo.
— Então me fala seu nome completo, idade e signo. Agora. Sem gaguejar.
— Júlio da Silva Souza. 35. Peixes.
— Religião.
— Católico.
— Praticante?
— Nem pensar.
— Nome da sua mãe.
— Ela morreu, Reginaldo.
— Morreu mas tem nome.
— Tânia da Silva Aguiar.
— Nome do pai.
— Do meu pai? Eu não conheci meu pai.
— Quase que te peguei agora. Você é bom nisso. Mas vou te desmascarar.
— Seu primeiro carro.
— Só tive moto.
— Boa. Nome do seu cachorro.
— Era gato.
— Tá indo bem. Sua primeira vez.
— O que tem?
— Quando foi?
— Aos 17.
— Com quem foi?
— Não lembro o nome. Mas a Amanda conhecia.
— Fala baixo.
— Quem está aí, Reginaldo? Não é engano pois falou meu nome.
— Um colega, Amanda. Um colega.
— Onde foi?
— O que?
— A primeira vez?
— No fusca do Régis.
— Rapaz. Você é bom mesmo, hein.
— Já falei. Sou eu, Reginaldo.
— Tá bom – já ficando pálido – Fale uma coisa que só nós dois sabemos.
— Aquele dia no ginásio, depois da aula…
— Não. Isso não. Não me venha do além com essa história não.
— Quem é, Reginaldo – Amanda puxa a porta de repente – E que história é essa que ele tá contando. Julinho?

Ela quase tem um treco.

— O que você tá fazendo aqui, Julinho. Eu fui no seu enterro.
— Pois, é. Só queria contar um negócio pro Reginaldo.
— Negócio de onde, Julinho? Do além?
— Não é bem isso. É que…
— Bobagem, Amanda. Não vê que é uma farsas. Isso deve se peruca.
— Não é não. Pode puxar.
— De jeito nenhum que vou pegar em cabeça de defunto.
— Não é bem assim.
— É assim sim. Deve estar frio. Frio e duro. Só deve estar coradinho assim por causa de maquiagem.
— Mas parece demais com o Julinho – Amanda fala hipnotizada – Por que você voltou, Julinho?
—Eu só queria contar para o Reginaldo que…
—Contar nada. É farsa. Sim.
— Já respondi todas as perguntas.
— Tava bem preparado.
— Preparado como?
— Decorou tudo.
— Tem coisa que só eu e você sabemos.
— Como o que? – perguntou Amanda.
— Como o que – corta nervoso – Não sabe nem o nome da primeira dele.
— Você sabe, Reginaldo.
— Foi a… Foi a… Não interessa. Não lembro agora. Não sou eu que preciso provar que estou vivo.
— Não lembro o nome mas lembro quem foi, Amanda. Foi aquela do carnaval do Clube Atlético Marroquinha. Aquela de carona no fusca do Régis.
— A Fabi? Não acredito. Foi com ela! Você acredita que ela hoje é esposa do…
— Amanda. Você enlouqueceu, Amanda. Está de conversa com um defunto – perdido, fora de si.
— Agora aceitou que sou eu – Julinho orgulhoso.
— Aceitei nada. Sai daqui. Isso deve ser uma piada – trêmulo.
— Não. Acho que é ele mesmo.
— Mas como, Amanda. Ele morreu. Ataque fulminante. A gente ficou até o fim. Jogaram terra em cima.
— Mas olha lá. É ele. Sabe até o que eu não sabia do Julinho.
— Pelo menos você, Amandinha.
— Amandinha, não. Amandinha o caralho. Você vem do inferno assustar a gente e ainda chama a Amanda de Amandinha?
— É um jeito carinhoso de falar – argumenta Julinho.
— Carinhoso o cacete. Nunca vi morto carinhoso. Nunca vi morto fora de caixão. Nem sei porque estou conversando com morto. Nem sei porque estou acreditando que aqui tem um morto. Deve ser brincadeira do pessoal da firma.
— Não é brincadeira não, Reginaldo. Quer ver? Julinho, vocês dois sempre foram cheio de segredinho. Conta uma coisa que só vocês sabem.
—Teve aquela vez no ginásio. Nós dois depois da aula…
— Essa história, não – explode Reginaldo – Vem dos quintos dos infernos para difamar a gente. Essa história, não. Vai para outra casa assustar e criar discórdia. Isso aqui é casa de família. Cai fora seu defunto farsante de merda.

Fecha a porta com violência. Tranca. Esconde a chave. Amanda tenta argumentar. Mas ele está irredutível.

— Defunto difamador.

Abre um licor e começa a beber às nove da manhã. Amanda olha pela janela Julinho indo embora, imaginando para onde ia agora. O que ele tinha para contar. Que notícia trazia do além. E que história era aquela do ginásio.
Após um dia de silêncio. Com Reginaldo, trêmulo, bebendo e fumando. Ela fala.

— Reginaldo, meu amor. Amanhã vamos à igreja acender uma vela para ele – depois de um longo silêncio – E a gente podia ir no cemitério. Falar com o pessoal de lá. Ver se estar tudo bem com o Julinho – mais um longo silêncio – Reginaldo?

— O que?
— O que que aconteceu no ginásio?

Ele continuou em silêncio. Hora com a lembrança inevitável do acontecido no ginásio. Hora com o ódio pelo falecido amigo. Dizendo para si mesmo.

— Defunto difamador, só voltou para me complicar… Ela sempre desconfiou…