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Desconstruindo Romeu e Julieta – Ato 1 Cena 1

Desconstruindo Romeu e Julieta
(Que Sheakspeare nos perdoe)

 

 

PERSONAGENS TRÁGICOS
ESCALO, Príncipe de Verona.
PÁRIS, jovem nobre, parente do príncipe.
MONTECCHIO, chefe de uma das casa rivais.
CAPULETO, chefe de uma das casa rivais. Um tio de Capuleto.
ROMEU, filho de Montecchio.
MERCÚCIO, parente do príncipe,(amigo de Romeu).
BENVÓLIO, sobrinho de Montecchio,(amigo de Romeu).
TEBALDO, sobrinho da senhora Capuleto.
FREI LOURENÇO, franciscano.
FREI JOÃO, da mesma Ordem.
BALTASAR, criado de Romeu.
SANSÃO,criado de Capuleto
GREGÓRIO, criado de Capuleto.
PEDRO, criado da ama de Julieta.
ABRAÃO, criado de Montecchio.
Um boticário. Três músicos. Pajem de Mercúcio; pajem de Párís; outro pajem; o oficial.
SENHORA MONTECCHIO, esposa de Montecchio.
SENHORA CAPULETO, esposa de Capuleto.
JULIETA, filha de Capuleto.
AMA de Julieta.
Coro.
ANTÔNIO e JÚLIO, não têm nada a ver com a história

ATO I
Cena I
Verona. Uma praça pública. Um rapaz fica observando atentamente sua roupa. Em todos os detalhes. De repente outro se aproxima. Parece enfeitiçado pelo lugar. Ao ver seu amigo, se exalta.

JÚLIO — Ah! Você aqui também? Que lugar é esse?
ANTÔNIO — Sei não, rapaz – diz admirando as vestimentas.
JÚLIO — E essa roupinha mais esquisita. Afrescalhada. Onde arranjaram? Quem vestiu a gente assim?
ANTÔNIO — Sei não, rapaz – ainda admirando os detalhes.
JÚLIO — O que você tanto olha aí?
ANTÔNIO — Essa roupa, rapaz.
JÚLIO — É bem estranha. Mas esquece a roupa. Olha onde nós estamos?
ANTÔNIO — Olha só. Tem até babado aqui.
JÚLIO — Peraí, você está gostando deste troço?
ANTÔNIO — É que uma vez eu vi um filme com um príncipe…
JÚLIO — Você está gostando desta roupa afeminada?
ANTÔNIO — Não, não é isso… É que o príncipe do filme…
JÚLIO — Tá na cara. Você gostou.
ANTÔNIO — E você? Tá vestido assim ainda por quê?

Júlio nem tem tempo de responder. Entram Sansão e Gregório, armados de espada e broquel. Júlio e Antônio se escondem num canto. Tentando não ser vistos.

SANSÃO — Por minha palavra, Gregório: não devemos levar desaforo para casa.
ANTÔNIO — Ih! Pela conversa vai rolar porrada.
JÚLIO — Cala a boca. Eles estão armados.
GREGÓRIO — É certo, para não ficarmos desaforados.
SANSÃO — O que quero dizer é que quando eu fico encolerizado puxo logo da espada.
ANTÔNIO — Esse aí é o mais esquentadinho.
JÚLIO — Cala a boca – e dá um beliscão e Antônio se segura para não gritar.
GREGÓRIO — Sim, mas se quiseres viver, toma cuidado para não ficares encolarinhado.
SANSÃO — Quando me irritam, eu ataco prontamente.
GREGÓRIO — Mas não te irritas prontamente para atacar.
SANSÃO — Até um cachorro da casa dos Montecchios me deixa irritado.
GREGÓRIO — Ficar irritado é pôr-se em movimento, e ser valente é estacar. Logo, se ficares irritado, pôr-te-ás a correr.
SANSÃO — Um cachorro daquela casa me fará fazer pé firme. Encostar-me-ei na parede contra qualquer homem ou rapariga da casa de Montecchio.
ANTÔNIO — O que significa rapariga mesmo?
JÚLIO — Cala a boca.
GREGÓRIO — Isso prova que não passas de um escravo fraco, porque o mais fraco é que se encosta à parede.
SANSÃO — É certo. É por isso que as mulheres, como vasilhas mais fracas, são sempre encostadas à parede. Por isso, afastarei da parede os homens de Montecchio e encostarei nela as raparigas.
ANTÔNIO — Ih, rapaz! Na casa destes Montecchios deve rolar de tudo com as raparigas.
JÚLIO — Cala a boca – dá outro beliscão.
GREGÓRIO — A pendência é entre nossos amos e nós, seus servidores.
SANSÃO — Pouco importa; hei de revelar-me tirano: depois de lutar com os homens, serei cruel com as raparigas; arranharei a pele de todas as virgens.
ANTÔNIO — Ih, rapaz! Nem as virgens eles perdoam.
JÚLIO — Cala a boca.

Dessa vez o beliscão foi tão forte que Antônio gritou.

GREGÓRIO — Quem sois? Estranhas nefastas figuras. Que fazem espreitando estas sombras, deixando que teus ouvidos capturem colóquios que não lhe pertencem?

Gregório e Sansão sacam suas espadas.

SANSÃO — Devem estar aqui a mando dos Montecchio.

Depois de alguns instantes de silêncio:

ANTÔNIO — Olha. Acho que estão falando com a gente.
JÚLIO — Cala a boca – sussurra pálido de medo.
ANTÔNIO — Não adianta falar baixinho não. Eles já viram a gente.
JÚLIO — Cala a boca – sussurra ainda pálido de medo.
GREGÓRIO — Quem sois? Digam agora ou o fio de minha espada talhará sua carne.

Vendo estarem sem saída, caminham timidamente para perto dos homens armados.

JÚLIO — Eu sou o Júlio e ele o Antônio – ainda pálido.
SANSÃO — São homens de Montecchio?
ANTÔNIO — Somos não.
SANSÃO — E o que fazem ofuscados nestas sombras?
JÚLIO — Acho que estamos perdidos.
GREGÓRIO — Sim, estão perdidos espiões miseráveis.

Gregório parte para o ataque mas Sansão o contém. Júlio se encolhe todo. Antônio parece não entender a gravidade da situação.

SANSÃO — Fiquemos com a lei do nosso lado. Eles que principiem.

Sansão e Gregório ficam estáticos, preparados para a luta. Júlio e Antônio não se mexem.

GREGÓRIO — Vamos, principiem!
ANTÔNIO — Principar o que?
GREGÓRIO — Lacaios. Estão a zombar de nós, Sansão.
SANSÃO — Talvez. Mas não ataquemos agora. Não sabemos verdadeiramente quem são.
ANTÔNIO — Sansão? Já vi uma história com Sansão. Era Sansão e Dalila.
GREGÓRIO — Vez. Estão a zombar de nós. Espalham calúnias sobre você e Dalila.
SANSÃO — Malditos. Mas quem é Dalila?
GREGÓRIO — Se não o sabes. Maior é a zombaria.

Partem para o ataque. Antônio, agora ciente do perigo, e Júlio correm desesperados. Conseguem se esquivar de alguns ataques. Até que entram Abraão e Baltazar

GREGÓRIO — São verdadeiras minhas suspeitas. Lá vem os senhores deste dois espiões.
SANSÃO — Minha arma nua já está fora. Briga tu que eu defenderei tuas costas.
GREGÓRIO — Como assim? Viras as costas e corres?
SANSÃO — Não tenhas medo de mim.
GREGÓRIO — Ora essa! Eu, ter medo de ti?
SANSÃO — Fiquemos com a lei do nosso lado; eles que principiem.
GREGÓRIO — Vamos, principiem.

Sansão e Gregório ficam estáticos, preparados para a luta. Abraão e Baltazar não fazem menção de luta. Júlio e Antônio ficam quase que agarrados no meio deles.

ANTÔNIO — As brigas aqui sempre começam assim?
JÚLIO — Assim como?
ANTÔNIO — Sei lá…. “a lei do nosso lado”… “principiem”.
JÚLIO — Quieto. Acho que podemos nos safar desta.
GREGÓRIO — Vou franzir o rosto, quando passar por eles; e eles que interpretem isso como entenderem.
SANSÃO — Não. Como ousarem. Vou morder o polegar, o que para eles será desonroso, no caso de não retrucarem.
ABRAÃO — É para nós que estais mordendo o polegar, senhor?
SANSÃO — Estou mordendo o polegar, senhor.
ABRAÃO — É para nós que mordeis o polegar, senhor?
ANTÔNIO — Mas que conversinha mais esquisita.
GREGÓRIO — Calem. Espiões covardes. Corram para seus senhores antes que minha espada não se contenha.
ABRAÃO — Que estais a dizer, senhor?
GREGÓRIO — Que enviastes homens de pouca monta nos vigiar.
ABRAÃO — Não os conheço, senhor.
GREGÓRIO — Não mintas. Podem estar em vantagem. Mas não os temo em números. Estais querendo brigar, senhor?
ABRAÃO – Eu, senhor, querendo brigar? Não, senhor.
SANSÃO — Porque, se o quiserdes, senhor, estou às vossas ordens; sirvo a um senhor tão bom quanto o vosso.
ABRAÃO — Porém não melhor.
SANSÃO — Perfeitamente, senhor.
GREGÓRIO — São tão covardes como teus espiões?
ABRAÃO — Agora foste longe demais. Afirmo desconhecer estes homens. Mas nunca aceitarei tal provocação.

Abrão e Baltazar sacam espadas.

GREGÓRIO — Pois repito. São tão covardes como teus espiões.

Os quatro desferem breves golpes. Golpes sempre aparados pelas espadas adversárias. Júlio e Antônio tentam se afastar da confusão. Mas por mais que se esforcem, continuam no meio.

ABRAÃO — Agora entendo porque mordias o polegar – gritou às espadadas.
SANSÃO — Mordia para testar sua valentia.
ABRAÃO — Pois agora sabes que não tolerarei nenhuma mordida de polegar.
ANTÔNIO — E começou a conversa estranha de novo. O que este povo tanto morde o polegar?
JÚLIO — Que situação. Que situação – disse desviando dos golpes e tentando sair do meio da briga.

Batem-se as espadas. Entra Benvólio.

BENVÓLIO — Loucos, parai com isso! Guardai vossas espadas. Não sabeis o que fazeis.
JÚLIO — Até que enfim a turma do deixa disso chegou .

Entra Tebaldo.

TEBALDO — Como! Sacas da espada contra uns pobres corçozinhos sem força? Aqui, Benvólio! Vem encarar a morte!
ANTÔNIO — Corçozinhos somos nós é?
JÚLIO — Não sei, mas prepare-se que a briga vai começar de novo.
BENVÓLIO — Procurava separar esta gente. Guarda a espada e me ajuda a acalmá-los.
TEBALDO — Como! Falas em paz e a espada arrancas? Tão grande ódio tenho a esse termo como ao próprio inferno, a todos os Montecchios e a ti mesmo. Defende-te, covarde!
ANTÔNIO — Rapaz, que povo que complica para falar.
JÚLIO — É. Era só dizer que vai dar porrada nos Montecchios e pronto.

Batem-se as espadas. Entram partidários das duas casas, que se misturam com os combatentes; depois entram cidadãos, armados de paus e partasanas.

CIDADÃOS — Varas e partasanas! Derrubai-os! Descei o pau! Abaixo os Capuletos! Fora os Montecchios!
ANTÔNIO — Agora virou briga de torcida.
JÚLIO — Montecchios. Capuletos. Não tem para onde correr.

Entra Capuleto, de roupão de dormir, e a Senhora Capuleto.

CAPULETO — Que barulho é esse? Minha espada comprida! Ide buscá-la! Olá!
SENHORA CAPULETO — Muletas, isso sim: muletas! Por que pedir espada?
CAPULETO — A espada! digo. Chega o velho Montecchio e brande a lâmina, para fazer-me acinte.

Entram Montecchio e a Senhora Montecchio.

MONTECCHIO — Capuleto, Vilão!… Deixai! Tem de se haver comigo.
SENHORA MONTECCHIO — Não darás um só passo para o inimigo.

Entra o príncipe com seu séquito.

PRÍNCIPE — Súditos revoltosos, inimigos da paz, que profanais vossas espadas no sangue dos vizinhos… Quem sois vós? Jamais os vi em Verona – diz interrompendo-se.
ANTÔNIO — Júlio – diz apontando para Júlio.
JÚLIO — Antônio – diz apontando para Antônio.
PRÍNCIPE — E o que aqui fazem?
ANTÔNIO — Não sei!
PRÍNCIPE — Não sabes! Como não o sabes? Sois Capuletos ou Montecchios?

Temendo acirrar os ânimos com um dos grupos rivais, Antônio toma a frente.

ANTÔNIO — Nem Capuletos, nem Montecchios. Somos Capuccinios.
JÚLIO — Ai, ai, ai!
PRÍNCIPE — Capuccinios. Não os conheço.
ANTÔNIO — Não conheces! Como não nos conheces? – diz tentando manter o tom poético típico do lugar – Quando os provares irás gostar-los dos Capuccinios.
JÚLIO — Para Antônio. Para. A gente vai se dar mal.
PRÍNCIPE — Já que não sois parte destas famílias rivais. Transmita a eles este pito, pois me recuso a falar com gente com tais ânimos.
ANTÔNIO — Sim, senhor.
PRÍNCIPE — Olá, senhores, animais selvagens que as chamas apagais de vossa fúria perniciosa na fonte purpurina de vossas próprias veias.

Antônio fica estático. Não parece ter entendido muita coisa.

JÚLIO — Fala Antônio. Fala. A gente vai se dar mal.
ANTÔNIO — Olha, pessoal. Vocês são animais, em chamas… Com purpurina nas veias – diz sem muita firmeza para os grupos em lados opostos.

Todos se questionam sobre a crueza daquelas poucas palavras. Mas o príncipe, envolto em sua atmosfera de repreensão, parece ignorar ou não ouvir a deturpada tradução.

PRÍNCIPE — Sob ameaça de tortura, jogai das mãos sangrentas as armas para o mal, só, temperadas, e a sentença escutai de vosso príncipe irritado.
ANTÔNIO — Oh! O cara tá irritado… vai torturar… vai dar nas mãos até sangrar – diz um pouco mais confiante.

Todos se assustam.

PRÍNCIPE —Três vezes essas lutas civis, nascidas de palavras aéreas, por tua causa, velho Capuleto, por ti, Montecchio, a paz de nossas ruas três vezes perturbaram.
ANTÔNIO — Ele já falou três vezes e vocês continuam perturbando – diz inflamando-se.
PRÍNCIPE — Os provectos cidadãos de Verona, despojando-se das vestes graves que tão bem os ornam, nas velhas mãos lanças antigas brandem, vosso ódio enferrujado.
ANTÔNIO — A proveta e a ferrugem… olha, agora não entendi nada. Mas ele está bravo com vocês.
PRÍNCIPE — Se de novo vierdes a perturbar nossa cidade, pela quebrada paz dareis as vidas. Por agora, que todos se retirem.
ANTÔNIO — Cai fora gente – faz sinal de dispersão, cheio da razão.
PRÍNCIPE — Vós, Capuleto, seguireis comigo, e vós Montecchio, à tarde ireis à velha Cidade-Franca, à corte da Justiça, para conhecimento, assim, tomardes de quanto resolvermos sobre o caso. Já! Sob pena de morte, dispersai-vos!
ANTÔNIO — O seu Capuleto pra cá, o seu Montecchios pra lá. Agora! Senão ele vai mandar matar. O resto cai fora.

Saem todos, com exceção de Montecchio, a senhora Montecchio, Benvólio, Júlio e Antônio. Estes últimos ficam num canto, sem saber se aproximam.

MONTECCHIO — Quem reavivou esta querela antiga? Sobrinho, dize: onde te achavas na hora?
BENVÓLIO — Antes de eu vir aqui já se encontravam em luta engalfinhados vossos homens e os de vosso inimigo. Tencionando separá-los, saquei de minha espada. Nesse instante, porém, chegou o ardente Tebaldo, espada em punho… Estes dois estavam presentes e sabem dizer o que aconteceu.
MONTECCHIO — E quem são eles?
BENVÓLIO — Nunca os vi, senhor. Mas disseram ser Capuccinios.
MONTECCHIO — E quem são esses Capuccinios?
BENVÓLIO — Não sei, senhor. Mas estavam no centro da confusão. E aquele ali parece gozar de grande prestígio do Príncipe.
MONTECCHIO — Eu não sabia que o Príncipe gostava de Capuccinios. E você?
BENVÓLIO — Não sei se gosto de Capuccinios, senhor.
MONTECCHIO — Nem eu. Chame-os aqui.

Os dois, receoso, se aproximam após o convite de Benvólio.

MONTECCHIO — Algum dos senhores saberia dizer a razão de tamanha confusão?

Antônio faz menção, mas Júlio toma a frente.

JÚLIO — Não senhor. Tivemos um grande azar em nos acharmos no meio desta falta de civilidade.
ANTÔNIO — Mas que jeito esquisito de falar.
JÚLIO — Fica quieto, Antônio. Só assim essa gente nos entende.
MONTECCHIO — Então não tens parte em qualquer lado desta disputa! E pouco sabem do motivo.
JÚLIO — Correto, senhor.

Senhora Montecchio interrompe.

SENHORA MONTECCHIO — Oh! E onde está Romeu? Sabes, acaso? Alegra-me não vê-lo neste caso.
JÚLIO — Romeu? A senhora disse Romeu?
SENHORA MONTECCHIO — Sim, ele estava envolvido neste caso?
JÚLIO — Romeu. Essas roupas. Capuletos. Montecchios. Por mais incrível que pareça, isso tudo começa fazer algum sentido.
ANTÔNIO — Do que você está falando, Júlio?
JÚLIO — Perdão. Fale-me mais deste Romeu, senhora.
SENHORA MONTECCHIO — Meu filho Romeu…
BENVÓLIO — Uma hora antes de haver o sol sagrado cortado as franjas de ouro do nascente, senhora, me levou o inquieto espírito a fazer um passeio lá por fora, onde à sombra de um bosque de sicômoros que se estende para oeste da cidade…
ANTÔNIO — Não enrola, rapaz. A mulher tá aflita. Você viu ou não viu?
BENVÓLIO — Vi – responde abalado pela brusca interrupção – Vi vosso filho a andar, que madrugara. Dirigi-me para ele; mas, havendo-me pressentido, esgueirou-se para a sombra mais densa do arvoredo. Eu, que seu íntimo medira pelo meu…
ANTÔNIO — Ihhh! Para por aí. Não fala de coisa íntima de vocês aqui não. Quer dizer que ele fugiu.
BENVÓLIO — Fugiu.
MONTECCHIO — Muitas manhãs tem ele sido visto nesse bosque, a aumentar com suas lágrimas o orvalho matutino e acrescentando com seus suspiros fundos novas nuvens às nuvens existentes. Porém logo que principia o sol, que tudo alegra, a abrir no este longínquo o véu sombroso do tálamo da Aurora, da luz foge meu filho atribulado, recolhendo-se à casa, onde se fecha no seu quarto, cerra as janelas, a luz clara expulsa, e noite artificial, assim, prepara. Poderá acabar mal todo esse enliço, se não for afastada a causa disso.
ANTÔNIO — Socorro – suspira – isso tudo é pra dizer o que?
JÚLIO — Que Romeu deve andar triste, Antônio – diz em tom artificialmente poético – Não se preocupe, caro senhor. Conhecemos teu filho e em breve, assim que o soubermos, revelaremos ao senhor motivo de tamanha tristeza.
MONTECCHIO — Oh! Quem dera que o ouvisses, em boa hora, essa revelação! Vamos, madame, embora.

Saem Montecchio, Benvólio, que aparenta grande suspeita em relação aos dois estranhos, e a senhora.

ANTÔNIO — Mas que conversa fiada era aquela, Júlio?
JÚLIO — Você não entendeu onde estamos?
ANTÔNIO — Em Verona – diz com propriedade – o príncipe falou. Ele é príncipe de Verona.
JÚLIO — E você sabe onde fica Verona?
ANTÔNIO — Não. Você sabe?
JÚLIO — Eu também não. Mas antes disso tudo, você se lembra do que estava fazendo?
ANTÔNIO — Nem parei para pensar. Eu estava… ou melhor nós estávamos… na aula.
JÚLIO — Que aula?
ANTÔNIO — De Literatura, do professor Gusmão.
JÚLIO — E o que estava acontecendo na aula?
ANTÔNIO — Sei lá. Ele tava falando de uma história chata. Cheia de palavras. Eu acho que acabei pegando no sono.
JÚLIO — Exato. Eu também. Depois de você. Na carteira ao lado.
ANTÔNIO — E onde você quer chegar.?
JÚLIO — Era aula sobre o livro Romeu e Julieta do Tchaikovsky.
ANTÔNIO — É mesmo – surpreso – Mas Romeu e Julieta não era de um inglês? Esse nome parece russo…
JÚLIO — Parece mesmo – pensativo – Mas se dizem que o cara era inglês…
ANTÔNIO — Mas espera aí. Se eu estou dormindo… Você quer dizer que nós estamos…
JÚLIO — Inacreditável. Mas é a única coisa que posso imaginar. Aquela fala ritmada do professor, lendo Romeu e Julieta… nos fizeram cair no sono e sonhar.
ANTÔNIO — E como é que você veio para no meu sonho?
JÚLIO — Ou você no meu.
ANTÔNIO — Isso explica as roupas…

Entra Romeu.

ROMEU — Que horas são?
ANTÔNIO — Olha, como a aula do Gusmão era a segunda. Deve ser umas nove e pouco.
ROMEU — A dor é um tardo guia. Não foi meu pai que se afastou com pressa?
JÚLIO — Foi sim. O pessoal está preocupado com você andando triste por aí. Abre o jogo com a gente.
ROMEU — Oh! que batalha por aqui houve? Mas não contes nada, que já soube de tudo. O ódio dá muito trabalho por aqui; mas mais, o amor. Então, amor brigão! Ó ódio amoroso! És tudo, sim; do nada fostes criado desde o princípio. Leviandade grave, vaidade séria, caos imano e informe de belas aparências, chumbo leve, fumaça luminosa, chama fria, saúde doente, sono sempre esperto, que não é nunca o que é. Eis aí o amor que eu sinto e que me causa apenas dor. Não queres rir?
ANTÔNIO — Isso tudo era pra rir?
ROMEU — Do amor é sempre assim a transgressão. As dores próprias pesam-me no peito; mas agora redobras-lhes o efeito com mostrares as tuas; o tormento que revelaste, ao meu deu mais alento. O amor é dos suspiros a fumaça; puro, é fogo que os olhos ameaça; revolto, um mar de lágrimas de amantes… Que mais será? Loucura temperada, fel ingrato, doçura refinada. Adeus.
ANTÔNIO — O que esse cara tem? – pergunta pra Júlio.
JÚLIO — Este é o Romeu.
ANTÔNIO — O da Julieta?
JÚLIO — E quem mais poderia ser.
ROMEU — Ouvi dizerdes o nome de meu amor?
ANTÔNIO — Ouviu sim. Nós estamos sabendo da parada.
ROMEU — Parada?
JÚLIO — Manera, Antônio. A história é trágica.
ANTÔNIO — Você tá afim dela, não está?
ROMEU — Afim?
ANTÔNIO — Pois é, para com esse falatório todo e vai lá resolver a parada com ela. Não enrola não que outro chega junto.
ROMEU — Chega junto?
ANTÔNIO — É. E já ouvi dizer que de tanta enrolação essa história não vai terminar bem.
JÚLIO — Manera, Antônio. Ele não sabe o que acontece no final.
ANTÔNIO — Nem eu. Não li o livro. Só sei que tem gente que chora no final do filme.
ROMEU — Filme?
JÚLIO — Cara, nessa época nem tem filme.
ANTÔNIO — Tá. Tá. Chega de conversa. Ela está a vos esperar lá. Vá lá e manda ver.
ROMEU — Nisso vos enganais. Ela é catita. A seta de Cupido não cogita de bater nela. Sábia como Diana, a castidade é sua soberana. Do arco gentil do amor está amparada e, assim, da lenga-lenga apaixonada. Resistir pode a todos os assaltos dos olhares morteiros, não chegando nunca a cair-lhe no regaço a chuva de ouro que os próprios santos tem vencido. Oh! é rica em beleza, mais que bela, porque a beleza morrerá com ela.
ANTÔNIO — A única coisa que entendi aí é lenga-lenga. Aqui só tem lenga-lenga. Ninguém resolve nada.
ROMEU — Mas diga-me, quem sois vós?
ANTÔNIO — Antônio Capuccinio e Júlio Capuccinio.
ROMEU — Capuccinios. Não conheço tal família. Sois irmãos.
ANTÔNIO — Nem tanto.
ROMEU — São de Verona?
ANTÔNIO — Bom, na verdade nós somos de…
JÚLIO — Isso não interessa – interrompe – Olha Romeu, perdoai o comportamento rústico de meu amigo. Nós somos de terras distantes. Mas estamos aqui para ajudar-te em teu infinito sofrimento.
ROMEU — Infinito mesmo. Bens o sabe.
JÚLIO — Sabemos de muita coisa mesmo. Vem. Vamos conceber um delineamento…
ROMEU — Um delineamento?
JÚLIO — É um plano para o teu amor granjear.
ROMEU — Granjear? O meu amor?
JÚLIO — É granjear, conquistar.
ROMEU — Ah! Sim.
ANTÔNIO — Agora você está falando mais difícil que eles, hein Júlio. Nem o Romeu tá entendendo.

Saem os três a conversar.