Arquivo para abril \17\+00:00 2013

Nelsinho Agiota

Enquanto isso, num pequeno escritório em uma minúscula e velha sala comercial, em um velho prédio no decadente centro da cidade…

 

―Caixa d’Agua Contabilidade, boa tarde. O Siqueira, está sim, só um instante. Siqueira, telefone pra… ―  Siqueira gesticula desesperadamente.

―Ah! É para falar que não está ― diz tampando telefone ― Olha, o Siqueira não está. Não, eu não disse que ele está. Eu… Eu disse… Eu disse que ele estava, agora não está mais. Onde ele foi, ele foi ao banheiro ― gargalhadas.

Siqueira começa a bater nele com um livro de contas.

― Era brincadeira, Siqueira. Era brincadeira ― volta a falar no telefone ― ele foi… foi… ― Siqueira faz mímica de médico ― Ele foi ao médico.

Siqueira gesticula, perguntando quem é.

― Quem gostaria de falar com ele?

Imediatamente se levanta, em pânico.

― Ahhhh! É o Nelsinho Agiota ― aponta para o telefone em desespero ― É o Nelsinho ― balbuciando para Siqueira ― Tudo bem Nelsinho, como vai meu querido. Que horas que o Siqueira volta?

Siqueira faz sinal de que não volta.

― Ele não volta mais hoje. Seu Nelsinho. Por quê? Por quê? ― pergunta para Siqueira que faz mímica de avião ― Porque ele foi viajar. É ele pegou a mala, foi para o médico e de lá ia viajar. Não, não estou curtindo com sua cara não, seu Nelsinho. Que isso? Um cara que ajuda tanto a gente… Que ajuda tanto a gente… Como é que é? Avisar para o Siqueira que… Sequestrou a mulher do Siqueira. Sequestrou o filho do Siqueira. No carro do Siqueira. E só devolve depois que o Siqueira pagar o que deve… O que que eu digo ― tapando o telefone.

Siqueira faz sinal de cortar o pescoço.

― Olha, eu não tô botando fé nesse casamento mais não, viu. O Siqueira vive reclamando que a dona Neide está cheia de nhenhenhem… de quê-quê-quê… Peraí…

Siqueira sugere uma pergunta, fazendo mímica de cachorro.

― O Siqueira está perguntando.

Siqueira lhe mete soco na altura do ombro.

― Ai! O Siqueira não tá perguntando por que não tá aqui. Né? Como é que ele ia perguntar se não tá aqui. Né? Mas… Mas… ele deixou um bilhete, para caso isso acontecesse ― diz sem acreditar no absurdo que está falando ― e no bilhete está dizendo para perguntar… se o senhor… se o senhor ― tenta entender mímica ― se o senhor também sequestrou o cachorro do Siqueira. Sim!?! Não é porque o Siqueira tá dizendo…

Leva outro soco no braço.

― Quer dizer, o bilhete do Siqueira está dizendo que…

Siqueira escreve num papel e mostra a ele.

― Que… que a ração do cachorro é… é… é Farofino. É, Farofino. O quê? Vai botar a dona Neide para falar comigo. Não… Não põe que eu fico sem jeito… Dona Neide ― saúda com falso entusiasmo extremo ― Como é que vai a senhora? Situação chata essa né dona Neide. O Siqueira? O Siqueira não está dona Neide. É sério, ele não está. Oh! Oh! Oh! Dona Neide, não ofende porque eu não tenho nada a ver com isso. Quer saber. Passa pro Nelsinho aí que meu negócio é com ele. Tá um abraço. No da senhora também. Nelsinho, meu querido. Nelsinho, meu querido. Nelsinho meu querido. O negócio é o seguinte ― Siqueira faz diversas mímicas incompreensíveis ― Sabe aquele bilhete que o Siqueira deixou? Pois é, o bilhete ― diz sem graça, incrédulo, tentando ganhar tempo ― Nesse bilhete tem uma pergunta do Siqueira. Ele pergunta se… caso uma situação dessa ocorresse… se nesse caso, se o senhor ficasse com a dona Neide e as crianças… a dívida não estaria perdoada?

Nesse instante Siqueira para com as mímicas e, freneticamente faz sinal de positivo.

― Como é que é? Só se a gente passar o dinheiro do seguro do carro para o senhor?

Siqueira continua, freneticamente fazendo sinal de positivo.

―Mas é claro. Só dá um sumiço no carro que a gente passa o dinheiro. Claro que a gente tem sua conta. Todo mês tem que depositar uma porrada ― diz para si.

Siqueira volta a fazer mímica de cachorro.

―Ó. O Siqueira está pedindo para lembrar…

Novo soco no braço.

―O bilhete do Siqueira está pedindo para lembrar ― enfático ― que a ração do cachorro é… Farofino. Farofino, é… Então tá, seu Nelsinho. Um abraço para o senhor. Divirta-se com a dona Neide. Manda um abraço para as crianças. Tá? Tudo de bom.

Desliga o telefone. Trêmulo. Olha para o Siqueira, que está atônito, e diz rindo já sem forças.

― Uma dívida a menos.

Desmaia na cadeira.