Arquivo para setembro \22\+00:00 2012

Na fila (possível continuação de polifobia)

P— Boa tarde.

C1— Boa tarde.

P— Aqui que é a fila?

C1—É. Aqui é fila… Mas não sei se é a fila – diz dando ênfase ao final da frase.

P— Como assim? É a fila ou não é?

C1—Sim. É uma fila.

Silêncio.

P—Onde vai dar esta fila?

C1—Logo ali – apontando.

P—Ali, né.

C1—É pra lá mesmo?

P—Sim.

C1—Precisa de senha.

P—Não sei pra quê.

C1—Pra que o quê?

P—A senha ou a fila.

C1—Como?

P—Se tem fila não precisa de senha. Se tem senha não precisa ficar na fila. Mas aqui tem que pegar a senha para entrar na fila. Se ainda fosse fila para pegar a senha, vá lá. Mas senha para pegar a fila é demais.

C1—Nunca pensei nisso.

Silêncio.

C1—Qual é a sua senha?

P—Deve ser a próxima depois da sua.

C1—Talvez não.

P—Como não?

C1—Tinha gente, onde você estava. Mas já foi embora. Qual é sua senha?

P—Prefiro não olhar.

C1—Por quê?

P—Me deixa nervoso.

C1—Por quê?

P—Não sei, não gosto de olhar.

C1—Quer que eu olhe.

P—Faça o favor. Mas não precisa me dizer.

C1—Tá bom!

Silêncio

P—É a próxima?

C1—Depois da minha?

P—É.

C1—Não, é a número…

P—Não precisa dizer – diz com inesperado nervosismo.

C1—O que, o número?

P—É.

C1—Mas por quê?

P—Fico nervoso.

C1—Com o número?

P—É.

C1—Mas por quê?

P—Sei lá.

C1—Parece que o senhor está suando.

P—Nervoso.

C1—Pelo número?

P—Pelo número.

C1—Desculpe.

P—Não foi nada.

Tira um lenço da bolsa e tenta enxugar o suor na testa.

P—Que que isso? – dando um fóbico passo para trás.

C1—Só limpando o suor – assustada com a reação.

P—Pode deixar – ofegante.

C1—Mas o senhor não está bem – insistindo e ele se esquivando.

A luta continua até que ele explode.

P—Não me toca. Não me toca.

C1—O senhor não está bem. O que o senhor tem?

P—Nem te falo. Um monte de coisa.

C1—O senhor não se lembra o que tem? Se tem que tomar algum remédio…

P—Não. Eu… Eu… Remédio? Será isso?

C1—Então é o remédio?

P—Que remédio?

C1—Não sei. O senhor que falou.

P—Não estou lembrando de nenhum remédio. Será isso?

Pega seu pequeno caderno e começa a folhear.

P—Remédio. Remédio. Não estou vendo nada sobre remédio – lê diversos trechos, mas nenhuma referência a remédio – Acho que não tem remédio. Só se eu esqueci de anotar.

C1—O senhor costuma ter essas ausências?

P—Como assim, ausência?

C1—Isso, de ficar esquecendo as coisas.

P—Você também acha que tenho amnésia?

C1—Amin… o que?

P—Que estou perdendo a memória?

C1—Parece.

P—Ai, eu sabia que isso estava acontecendo. Já estão notando.

C1—O senhor quer minha senha pra ser atendido mais rápido? Ou melhor, vou pedir para aquele senhor no início da fila. É caso de emergência.

P—Não precisa. Não adianta – recompondo-se.

C1—Mas daqui a pouco não vai dar tempo de o senhor ser atendido hoje. Olhe a hora – diz mostrando o relógio.

P—Ai, não. Por favor, fique longe de mim.

C1—Meu senhor, já são cinco e meia e o tempo está passando e…

P—Não quero saber. Fique longe de mim – encurralado pelo próprio desespero.

C1—Mas sua senha é a 154!

P—Eu não quero saber do número, já falei.

C1—E a minha é a próxima. É a 75.

P—Eu não quero saber – desesperado.

C1—Olhe o número lá no painel.

Em um rápido movimento ela agarra um pequeno banco e se aproxima dele

C1—Pelo menos se sente um pouco.

P—Não – tropeça nas pernas e se arrasta para trás – eu não posso – apontando para o banco.

C1—Prefere ficar sentado no chão?

Ao se dar conta da posição, se estira no chão.

C1—Olha lá! Já é minha vez. Não quer entrar no meu lugar? Decida logo o tempo está passando.

P—Não. Não – estrebuchando – pode ir. Pode ir.

C1—Tá. Bom. Espero que o senhor melhore.

Ela entra.

P—Ai, meu coração. Ai, meu coração. Estou tonto. Será que eu uso sublingual?

Começa a procurar, em desespero, a palavra sublingual no caderno. Quando ela volta.

C1—Olha. Como já são quase seis, o doutor disse que a próxima senha será a 154. Anota no caderno. Não esquece.

E ele sofre seu primeiro infarto fóbico.

Polifobia

Personagens:     N[ Narrador/psicopatologista]  

                               P[ Personagem/sujeito]

 

N—Eis aqui uma oportunidade única para psicopatologistas identificarem e estudarem, em uma só mente, inúmeros transtornos de ansiedade, causados pelas mais banais situações cotidianas.

 Observa por alguns instantes o sujeito, que aos poucos vai ficando inquieto.

 P—Tudo bem, senhor?

 O narrador continua observando, sem se manifestar. O sujeito vai se manifestando desconfortável.

 P—Pois não.

 O narrador não muda sua atitude.

 P—O senhor quer parar de me olhar – explode.

N—Escopofobia. Medo de estar sendo olhado ………. Muitos de vocês podem estar se dizendo que este é um mal comum. Todos nós nos sentiríamos incomodados em diferentes graus ao sermos observados, em silêncio, continuamente – diz provocando novamente o sujeito – Mas posso provar que se trata de um caso raro de psicopatologia.

 Aproxima-se do sujeito e estende a mão.

 N—Tudo bem?

P—Tudo – responde evitando o contato.

N—Como vai? – tenta bater no ombro.

P—Bem, já disse – esquivando o ombro.

N—Que camisa bonita – tenta tocá-la.

P—É né! – se esforçando para não ser tocado.

N—Cortou o cabelo?

P—Não, tá igual a ontem! – se esquivando.

N—A barriga está em forma.

P—Dieta – esquivando.

N—E esse sapato? – tenta tocá-lo com o pé.

P—Tava de promoção – saltando.

N—Deixa eu te dar um abraço.

P—Não, obrigado – escapa por entre os braços e busca canto oposto.

N—É ou não é um caso clássico de afefobia. Medo de ser tocado. Sei que ainda podem estar incrédulos da dimensão deste caso. Irei mostrar mais três sintomas claros de fobia. Caro amigo – se aproximando do sujeito que ameaça esquiva – tudo bem, falarei daqui. Pode nos fazer um pequeno favor

P—Sim.

N—Tem certeza?

P—É algo simples mesmo? – fazendo menção à distância entre eles.

N—Certamente.

P—Tudo bem.

N—Conte até dez.

P—O que?

N—Conte até dez.

 Intimidado, ele começa.

 P—Um, dois… três… quatro…

 Diante de sua aparente dificuldade o narrador o apressa.

 N—Vamos. Algum problema. Até dez.

P— Cinco – as pausas vão se tornando maiores e ele vai ficando ofegante.

N—O tempo está passando. Já vai ser um minuto e nada de contar.

P—Seis – mais nervoso.

N—Vamos logo. Lá se vão dois minutos.

P—Sete – mais nervoso.

N—Três minutos. Olhe no meu relógio – aproxima-se mostrando o relógio.

P—Oito, nove, dez – termina em explosão, protegendo-se do narrador.

 O narrador o observa aquele triste quadro.

 N—Alguém saberia dizer quais fobias temos aqui? Alguém… Aritmofobia. O sujeito demonstrou claro medo de números. Sem me delongar demais com esta demonstração, provoquei outras duas situações correlatas para sua ansiedade. O Tempo e o relógio. Cronofobia e cronomentrofobia – sorri orgulhoso de si – Ao mesmo tempo demonstra falsa pena.

 Busca uma cadeira. Coloca-a próxima ao sujeito.

 N—Desculpe por tudo. Sente-se por favor.

Numa reação automática o sujeito senta. Seu processo de recuperação se inverte. Volta a ficar ofegante. Até que se dá conta de si e levanta rapidamente.

N—Catisfobia. Medo de se sentar. Coisa que vocês não tem. Com certeza – volta-se ao sujeito – aposto que, com sua curta memória, não se lembra de nada do que aconteceu até aqui.

Sujeito começa a divagar, recuperando trechos da conversa e sugerindo recordações.

P—Patologia. Psicopatologia. Ele veio falar de psicopatologia. Psicopatologia nas… nas situações cotidianas – começa a anotar – As patologias acontecem no cotidiano. Transtornos. Eu sou um exemplo. Transtorno de ansiedade nas situações cotidianas. É isso – nervosismo crescente – Ele ficou me olhando. Deu nome de fobia. Tentou me tocar. Outro nome de fobia. Como é que se chama mesmo? – angustiado – Como é o nome da fobia mesmo?

O narrador permanece estático. Orgulhoso de seu poder.

P—Éééé. Tem. Mais. O que veio depois. O relógio. Falou do relógio. Outra fobia. Não consigo me lembrar – bate na cabeça – Os números. Depois vieram os números na cadeira. Eu não sento – gritou como se respondesse algo – E, agora… agora… agora… eu não me lembro mais – contendo o desespero.

N—Amnesifobia. O sujeito tem medo de perder a memória. E de fato perde, tamanha a ansiedade. Confesso que nunca vi o caso em um sujeito de tão pouca idade. Senhores – conclusivo – poderia me delongar aqui com outras demonstrações deste rico exemplar de transtornos de ansiedade. Poderia demonstrar sua fonofobia, medo de vozes, sua mitofobia, medo de mitos, sua necrofobia, medo da morte ou de mortos. E poderia inclusive provocar aqui algo raro, um paradoxo: poderia provocar tanto a afobia, o medo de não sentir medo, e a fobofobia, medo das próprias fobias. Mas não, ao invés disso, imaginemos o cotidiano deste sujeito. Imaginemos como convive, como trabalha, como caminha, como come, como dorme. Imaginemos….

Continua… Aceita-se sugestões….