Arquivo para abril \08\+00:00 2012

A tradutora do Google – Parte 1

A tradutora do Google

Parte 1

 

Nos tempos modernos, com o advento da internet, as relações sociais e afetivas sofreram sérias transformações. Quem antes era Nerd agora é Geek. Quem antes tinha agenda cheia de amigos, agora tem Facebook e Orkut lotados. Quem antes era popular e vivia nas rodas, agora dá twitts e tem vários seguidores. Quem antes era solitário, agora tem solução.

Altair era um desses solitários. Desde a infância ficava isolado. O pai mandava ele jogar bola, para ver se enturmava.

Olha lá. Fica só na banheira e não participa do jogo.

A mãe, mais complacente, defendia.

Deixa, é coisa da idade. Daqui uns dias na escola estará cheio de amigos.

E na escola Altair era destaque. Ou melhor, destacado da turma. Sentava no canto esquerdo da sala. Quase entrando na quina da parede. Só não o fazia porque lá já tinha cupim, e ele não se misturava.

Não participa nem de bagunça. O professor nem se lembra dele.

O pai cutucava.

Deixa. Na adolescência vai estar cheio de colegas andando de skate e indo ao shopping.

Na adolescência Altair só saia do quarto para a faxineira dar um trato. Trato no quarto, diga-se de passagem.

E assim Altair passou a vida. Passou em contabilidade no vestibular. Ninguém lembrou dele no dia do trote. Escolheu o conhecido canto esquerdo da sala durante todo o curso. Os colegas se assustaram quando o viram na formatura.

Quem é esse aí?

Deixa. Um dia ele conhece uma moça boa e vai estar rodeado de parentes e crianças.

A mãe ainda insistia. O pai só o via nas festas de fim de ano. Seu lugar já estava sempre reservado no canto da sala.

Altair abriu um escritório. Contratou uma secretária bastante competente para manter contato com o mundo lá fora. E ele só ficava no canto do escritório. Fazendo seu trabalho. Muito bem feito por sinal.

Mas um dia ele cansou. Cansou, não. É algo dinâmico demais para Altair. Ele se sentiu levemente entediado. Depois de três décadas de silêncio, era o mínimo que podia sentir.

Resolveu ir a um encontro de contadores. Lugar melhor para solitários, não consigo imaginar. Conversa vai, conversa vem. Altair no canto, é claro. De repente um antigo vizinho o reconheceu.

Cumprimentos corriqueiros. Perguntas sobre a família. O ponche já estava subindo e pela primeira vez Altair falou mais que o necessário.

Solidão.

Foi a resposta mais significativa que dera a uma pergunta em anos.

O colega, especialista no assunto, foi imediatamente prestativo.

Os tempos são outros Altair. Você já usou o tradutor do Google?

Altair fez que não.

Acesse este site aqui – anotou o endereço – lá tem vários diálogos. Pode escolher o que convier. No começo é estranho, confesso. Mas com o tempo a gente até sente falta daquela voz formal e pausada.

E Altair ficou com aquilo na cabeça. Cabeça que doeu um pouco no outro dia.

Quando chegou em casa, não duvidou. Colocou seu netbook na cozinha acessou o site. Escolheu um diálogo intitulado “Rotina 3”. Entrou no Gmail. Entrou no tradutor do Google. Colou o texto e clicou no botão “Ouvir”.

Boa noite, meu bem.

A voz pausada e formal explorou lugares nunca antes alcançados por uma onda sonora no apartamento de Altair. Ele demorou um pouco para tomar coragem.

Boa noite – disse de costas para o computador, enquanto preparava algo rápido, tentando passar uma imagem de pessoa centrada, autossuficiente.

A casa estava triste sem você – a voz continuou.

Ele quase deixou o saleiro de inox cair. Tamanho foi o tremor. Não respondeu.

Hoje não saí. Estava com dor de cabeça mas já passou.

Que bom – respondeu ele desajeitado, sem acreditar no que dizia. Se sentia acuado na cozinha invadida por um espectro feminino.

Fiquei pensando em você o dia inteiro.

Altair quase desmoronou. É nisso que dá três décadas de energia acumulada.

Eu também.

Disse engasgado. Olhando para o netbook com olhar levemente comovido.

Você pensou em mim, querido?

Eu acabei de dizer isso… querida.

Ah! Eu fico tão feliz quando chega em casa – a voz mecânica do tradutor quase soou melancólica e doce.

O dia no trabalho foi corrido – disse espontaneamente entrando no clima, enquanto terminava de preparar a janta, para um, é claro – E, para piorar, minha mãe resolveu ligar para dar notícias.

E com foi o dia no trabalho?

Mas eu acabei de falar que foi corrido.

Era incrível. Nestes anos todos Altair inconscientemente parecia ter ensaiado o cotidiano de um casal, pois expressou-se com certo tom de agressividade diante da segunda pergunta repetitiva.

Eu tenho tanto orgulho de você ser tão bem sucedido. Ainda mais neste mercado tão competitivo – ela continuou.

Até que não é muito competitivo não. Ainda mais depois que implantaram prova registro profissional. Agora está faltando profissional no mercado. Tem empresa desesperada ligando para gente dizendo…

Quando começava se empolgar com o diálogo, coisa inconcebível para qualquer um que conheça Altair, a voz continuou friamente.

Têm notícia da sua mãe?

Mas eu falei agora pouco que ela ligou, não falei? – incrível, Altair era fluente numa discussão. Algo inimaginável – E o que é que tem minha mãe. Vamos falar de nós – aumentou o tom.

Que tal a gente pedir uma pizza e comer vendo um filme?

Peraí, você estava vendo o tempo todo que eu estava preparando a minha janta… Quer dizer nossa janta – concertou sem jeito para não parecer egocêntrico, mas sem perder o jogo de cintura – e agora vem me dizer que é para pedir uma pizza? O que está havendo aqui. Você quer me irritar é?

Agora a coisa saía do limite. Altair declarara aberta a primeira discussão com… com … com sua… Como é que vamos classificar aqui. Com sua companheira, digamos.

Para mim pode ser de brócolis.

Quer saber, peça uma para você. Conecte aí numa pizzaria online e se vire.

Saiu deixando a voz falando sozinha.

Ah! E peça uma Coca-Cola também.

Não enche – gritou de longe achando que aquilo era provocação.

Hoje vai passar Lagoa Azul. Quero assistir com você.

Lagoa Azul? Mas que merda é essa? Quem disse que eu quero assistir Lagoa Azul?

Você precisa ligar para sua mãe.

Eu já disse que falei com ela hoje – gritou do banheiro.

Amanhã você vai trabalhar?

Claro que vou. Por que está perguntando isso?

Amanha de tarde vai passar E o Vento Levou.

Se eu não quero assistir Lagoa Azul, vou querer assistir E o Vento Levou na sessão da tarde?

Você já pediu a pizza?

Que pizza?

Bem. Daí para frente o diálogo se tornou extremamente improdutivo. Embora já estivesse pouco construtivo. Os vizinhos estranharam a discussão. Nunca nem haviam notado a presença de Altair, que nem sequer pegava elevador para ir de escada sozinho.

O porteiro estranhou Altair sair de casa tarde da noite. Contrariado. E só voltar no outro dia depois do expediente. Olhos fundos, inchados. Desarrumado. Com uma pizza, cheirando brócolis ao longe, um buque de flores vermelhas e um DVD remasterizado de Lagoa Azul.

Bem, ele pensou o dia inteiro e achou que devera fazer as pazes.